06/dez 2011

O rock acabou?

Será? Veja os textos publicados na Folha de hoje sobre como o rock não é mais o foco da garotada, e como o rap e o hip-hop vêm tomando o lugar dele.

O rock morreu?

Das 50 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras em outubro passado, de acordo com a revista “Billboard Brasil”, há apenas três de rock ou pop-rock, sendo que apenas uma delas, do NX Zero (em 35º lugar), é nacional.

Concentre-se nas 15 primeiras posições, dominadas pelos sertanejos Michel Teló, Victor & Leo e Luan Santana: não há nenhum roqueiro.

Até nos Estados Unidos, onde o pop e o hip-hop dominam as paradas, há mais rock -entre as 50 primeiras, cinco são de bandas do gênero, três delas no top 20.

Não é de hoje que os roqueiros perderam espaço no “mainstream” -tanto nas rádios FM quanto nas listas de discos mais vendidos- mas, em 2011, a queda foi brutal.

Qual é o motivo? Faltam bandas boas ou falta público? As opiniões divergem.

Rick Bonadio, produtor que lançou bandas de rock bem-sucedidas como o Charlie Brown Jr., diz que vê um período de mudanças. “O underground continua produzindo muitas bandas, muitas ruins, mas a definição do rock vem se apurando e, em pouco tempo, teremos mais uma grande onda de bandas fazendo sucesso”, especula.

Alessandro Mello, gerente do núcleo musical da MTV Brasil, acredita que falta um expoente para o rock nacional voltar a crescer. “As grandes bandas de rock de hoje ainda são as mesmas de dez anos atrás. Falta aquela banda que, logo no primeiro disco, você percebe o talento.”
“Hoje, não dá para ver com clareza o rock nacional, como no início dos anos 90.”

SOBREVIVENTES
Nos últimos anos, nomes como Pitty e Jota Quest figuraram nas paradas. Mas, em 2011, mesmo com lançamentos, nenhuma ficou entre as dez primeiras posições nas rádios, exceto o Skank. O vocalista do grupo, Samuel Rosa, lamenta: “Infelizmente, o rock não é mais a música favorita da garotada.”

Para Mello, a cena que produziu a última leva de bandas de rock nacional mainstream, como Cine e Restart, está saturada. “Havia muitas bandas, mas todas faziam um som muito parecido”, diz. Para ele, o rap, gênero em ascensão, ameaça o rock na preferência dos adolescentes. “É uma música que emociona. Agora é o momento dos rappers. O que interessa agora é se eles vão se manter.”

Com rock em baixa, rap se torna aposta para 2012

Se, por um lado, é o sertanejo que domina as rádios e as vendas de discos no Brasil, por outro, é o rap que deve tomar o lugar do rock na preferência dos jovens órfãos de uma boa safra do gênero.

O ano de 2011 foi frutífero mesmo para o rap. Lá fora, os ótimos álbuns de Kanye West e Jay-Z (“Watch the Throne”) e de Drake (“Take Care”) enalteceram o estilo. No país, nomes como Emicida e Criolo despontaram. Com isso, 2012 promete ser o ano do rap mais uma vez.

Divulgada ontem, a lista BBC Sound de 2012, que dita tendências musicais para o ano seguinte, traz quatro rappers do total de 15 artistas. Entre eles, a norte-americana Azealia Banks, que também foi considerada pelo semanário britânico “NME” a pessoa mais “cool” de 2011.

A revista chama “212″, seu primeiro single, de “a faixa mais emocionante de três minutos e meio do ano, com rebeldia adolescente e atitude de quem faz o que quer”. A rapper ainda não tem gravadora. Já trabalha, no entanto, com o renomado produtor Paul Epworth (Adele e Florence and the Machine) em seu disco de estreia.

Banks chama a atenção por ser boca-suja, assim como o coletivo de rappers americanos Odd Future, que ganhou reconhecimento neste ano e tocou no festival SWU, em Paulínia (SP). Do mesmo coletivo sai outra aposta para o ano que vem: Frank Ocean. Completamente diferente dos colegas, que chamam mais atenção pelo mau comportamento do que pelo talento, Ocean é um habilidoso produtor e um ótimo cantor.

Logo de cara, conquistou gente como John Legend e Beyoncé (com quem gravou “I Miss You”, do álbum “4″). Embora já tenha lançado uma mixtape (compilação independente) e um EP, seu disco de estreia deve vir justamente em 2012.

ROCK X RAP
Se, por um lado, o rock pode não ter oferecido muitos expoentes inspiradores, isso não faltou ao rap. “Talvez o depoimento do Emicida ao ganhar o prêmio de artista do ano no VMB tenha sido a coisa mais rock que eu vi no ano inteiro”, diz o gerente do núcleo musical da MTV, Alessandro Mello, referindo-se ao discurso em que o rapper recitou a “oração dos parceiros” de sua gravadora, Laboratório Fantasma. Não é à toa que muitas bandas de rock brasileiras já optaram por gravar músicas e até discos inteiros ao lado de rappers, caso de “Projeto Paralelo”, do NX Zero.

A faixa “Presença”, dos mineiros do Skank, também ganhou clipe em 3D com a ajuda de Emicida. O vocalista Samuel Rosa defende a participação do rapper e questiona o que chama de “asco” pela música considerada popular. “Não sei se foi o excesso de patrulhamento, mas parece que tudo o que flerta com o popular é ruim. Isso não pode virar regra, nem tudo o que toca no rádio é ruim”, opina.

“Sentimos na pele a mudança”, diz Samuel Rosa

Para Samuel Rosa, o segredo do Skank, uma das poucas bandas do pop-rock nacional a se manter nas paradas de sucesso, foi flertar com outros gêneros ao longo de seus 20 anos. “Não vou dizer que o Skank se prestou a fazer todo tipo de música, mas as músicas não se parecem umas com as outras”, diz.

Samuel lamenta a falta de interesse dos jovens pelo estilo. “Eu tenho filhos adolescentes e sei que o rock não é mais a música predileta deles. Perdemos esse posto, infelizmente.”

“Sentimos essa mudança na pele, só que o Skank já estava estabelecido. Não que seja fácil. Mas é como se uma porta fechasse e a gente já estivesse dentro.”

O músico afirma que não vê nas bandas mais novas do gênero as intenções que o Skank tinha quando era estreante.

“Muita banda nova não se importa muito em tocar no rádio ou vender discos. Parecem acomodados em fazer esse circuito de festivais independentes. Quando o Skank começou, não era assim. A gente queria tocar no Faustão.”

O vocalista do Skank conta que, entre as estratégias atuais da banda para se manter em foco, está a atividade em redes sociais, além do site oficial. “Não é porque tenho Twitter que as pessoas vão gostar das nossas músicas, mas é uma forma de o Skank dialogar com as novas gerações”, finaliza.

Categoria: Música

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