Dr. Fantástico (1964) – Projeto Stanley Kubrick
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Stanley Kubrick foi conquistando uma liberdade criativa crescente a cada filme que realizava. Nesse sentido, Dr. Fantástico pode ser considerado um divisor de águas na carreira do diretor. Isso porque James B. Harris, sócio de Kubrick que produziu todos os seus longas até aqui, resolveu encerrar a parceria para ele mesmo iniciar uma carreira como diretor. Isso possibilitou que Kubrick, a partir desse sexto longa, tivesse controle absoluto sobre sua obra, agora que acumulava as funções de diretor e produtor. E ele se mostrou totalmente competente na função: Dr. Fantástico não só obteve sucesso de público e crítica, como também foi indicado a quatro Oscars: melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator, para Peter Sellers.
Estamos na metade dos anos 60 e Kubrick, como boa parte do mundo à época, está obcecado com a Guerra Fria e a ameaça nuclear que ela trazia. Ao pesquisar o assunto, o diretor descobriu o livro Red Alert, de Peter George, e, após adquirir os direitos do romance, escreve um roteiro junto com o autor e com Terry Southern. O resultado é um roteiro anárquico e cheio de humor negro, uma crítica ácida à Guerra Fria, cercado de ironia e sarcasmo.

Um General megalomaníaco, Jack D. Ripper (Sterling Hayden), isolado em uma base militar, resolve ordenar um ataque à União Soviética, que pode iniciar uma nova guerra ou mesmo destruir o mundo. Isso porque, caso o ataque se consuma, uma retaliação automática está programada, atendendo pelo sugestivo nome de “A Máquina do Juízo Final”. Apesar das tentativas de seu imediato, Capitão Mandrake (Peter Sellers), de impedir o ataque, Ripper consegue seguir com o plano, desobedecendo até mesmo o Presidente. É na Sala de Guerra, em Washington, que o Presidente Muffly (Peter Sellers), junto de sua mais alta cúpula, tenta reverter a situação, com a ajuda do General Turgidson (George C. Scott) e do estranho Dr. Strangelove (Peter Sellers), um ex-cientista da Alemanha nazista. Ao mesmo tempo, no avião que carrega a bomba, comandado pelo Major T.J. “King” Kong (Slim Pickens), os soldados mal imaginam as consequências que podem surgir caso eles sigam a ordem recebida.
O longa é uma grande crítica à Guerra Fria. Kubrick usa o filme para mostrar o quanto o homem é imbecil ao alimentar uma obsessão pelo conflito, mesmo que este possa levar à extinção de nossa espécie. Ele usa do boato recorrente à época, de que os russos estavam contaminando toda a água potável da América, como estopim para a ordem inconsequente de Ripper. Apesar do tema cascudo, Kubrick consegue fazer de Dr. Fantástico um filme extremamente engraçado e recheado de ironias, como no momento em que, tentando apartar uma discussão entre um embaixador soviético e Turgidson, o Presidente lembra que “Vocês não podem brigar aqui! Isto é a Sala de Guerra!”, ou na cena antológica em que o Major Kong monta, literalmente, na bomba atômica, como um bom caubói texano.

Dr. Fantástico é mais uma obra em que a obsessão meticulosa de Stanley Kubrick se faz presente. Ele cuidava de cada detalhe da produção exaustivamente, até que as cenas ficassem como ele esperava. As bombas cenográficas criadas para o longa, por exemplo, tiveram que ser refeitas três vezes, até que ficassem como Kubrick queria. Destaca-se, nessa dinâmica de produção, a presença de Peter Sellers. Apesar do controle que Kubrick gostava de ter sobre sua obra, ele deixava Sellers improvisar livremente durante suas cenas, que eram depois reescritas. O resultado é uma das melhores interpretações do ator, que rendeu uma indicação ao Oscar, mais que merecida (infelizmente, ele perdeu o prêmio para Rex Harrison, de Minha Bela Dama). Em certos momentos, dá até para acreditar que cada personagem está sendo feito por um ator diferente.

O final de Dr. Fantástico talvez esteja entre as cenas mais ousadas já feitas no cinema, em que as imagens (apesar de ser fácil de imaginar quais sejam, é melhor não arriscar um spoiler) contrastam com a canção “We’ll Meet Again“. Sem dúvida, foi o filme que colocou, de vez, Stanley Kubrick entre os maiores gênios do cinema mundial, e o primeiro de uma sequência de clássicos que podem figurar facilmente entre os melhores longas já feitos.
Categoria: Cinema
Tags: Dr. Fantástico, George C. Scott, Peter George, Peter Sellers, Projeto Diretores, Slim Pickens, Stanley Kubrick, Sterling Hayden, Terry Southern





