10/jan 2012

O BBB, os zumbis e o primeiro reality show

Não, não vou esculachar e nem defender o Big Brother Brasil, que estreia hoje sua 12ª edição. Primeiro porque, sinceramente, já cansei de todo esse mimimi em torno do programa. E, depois, tudo o que eu poderia dizer sobre o Forastieri já falou com propriedade e muito mais competência do que eu seria capaz. Saca só um pedaço do fantástico texto dele sobre o BBB:

Assistir ou não o BBB é como ouvir ou não Michel Teló, ou questionar a eterna popularidade praiana de cerveja e picolé. Assuntar sua validade estética é discutir o sexo dos anjos. O BBB é um vendaval sazonal, como o El Niño. Sopra forte todo verão. Tentar fugir ou ignorar é fútil. Fenômenos existem para serem investigados, se você é mais para chato, ou curtidos acriticamente, como convida o clima de férias.

Por que o BBB repercute tanto? Porque o BBB é o lado B da televisão careta, que tem como maior representante a novela. Nas novelas todo mundo é ou do bem ou do mal, todo mundo é família, 80% são brancos e bonitos, os pobres não sofrem com a falta de grana, todo mundo é hetero e os poucos gays não beijam na boca.

No BBB, como no mundo real, a maioria das pessoas é ambígua e faz qualquer coisa por dinheiro, ou pela fama, que talvez preencha ainda melhor nosso vazio. Freud explica: somente a realização de desejos infantis sacia. Criancinha não entende dinheiro, donde dinheiro não traz felicidade. Mas chamar atenção, ah, isso qualquer nenê nas fraldas sabe muito bem.

Goste você ou não do Big Brother, tenho certeza que você vai curtir a minissérie inglesa Dead Set, de 2008, que mistura o reality show mais famoso do mundo com… zumbis! É isso mesmo. E a mistura inusitada é pra lá de divertida. Na série em cinco episódios, o apocalipse zumbi acontece lá fora enquanto um grupo de pessoas está confinado no Big Brother britânico, sem saber o que acontece fora dali. E mesmo quando os gritos de pavor chegam aos ouvidos dos participantes, ou no momento em que uma funcionária da TV, desesperada, invade a casa fugindo dos mortos-vivos, todo mundo acha que é mais uma prova de eliminação.

Dead Set

O mais bacana é que Dead Set contou com a participação de um monte de ex-brothers de verdade, e até a apresentadora do programa aparece na série. É, sem dúvida, uma abordagem diferente, criativa e muito divertida de um programa que muita gente torce o nariz e, dizem por aí, já deu o que tinha de dar.

Se você acha que os reality shows começaram com o Big Brother ou, como muita gente acha, com o Real World da MTV, você está enganado. A primeira experiência de realidade na TV aconteceu lá nos anos 1970, quando o documentarista Craig Gilbert resolveu filmar o dia-a-dia da família Loud, de Santa Barbara, e exibir tudo na TV. Era o programa An American Family, que estreiou em 1973.

An American FamilySe num primeiro momento os Loud adoraram a experiência, quando o programa foi ao ar a família já estava se desmantelando. além do divórcio do casal principal, eles ainda brigaram com Gilbert, se sentindo enganados e traídos pelo diretor. Este, por sua vez, se desentendeu com sua equipe, e quase que o reality não foi exibido. Ainda assim, An American Family foi um sucesso retumbante, e abriu caminho para outros programas, como o nosso Big Brother.

A HBO produziu, esse ano, o telefilme Cinema Verité, que conta justamente a história dos bastidores do reality show de Craig Gilbert, com James Gandolfini, Tim Robbins e Diane Lane. O filme, que não foi exibido no Brasil, questiona justamente a nossa fascinação pela vida alheia, que motivou a criação de todos os reality shows que tanto sucesso fazem. E a história deu certo: Cinema Verité abocanhou três indicações ao Globo de Ouro 2012, incluindo a de melhor filme para TV.

Categoria: Televisão

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