20/dez 2011

Pequena Abelha, de Chris Cleave [Resenha X]

Para mim, uma das coisas mais difíceis é falar sobre um livro que não gostei muito. Mas após ler Pequena Abelha (Editora Intrínseca, 272 páginas), acho que é ainda mais difícil falar sobre um livro que gostei tanto, mas tanto que fiquei, literalmente, sem palavras. Mas talvez isso não seja algo ruim para um livro cuja estratégia de marketing se baseia justamente em divulgar o mínimo: sim, a própria contracapa do livro pede que se divulgue o menor número de informações sobre a história, sob pena de estragar a experiência do leitor. E quer saber? É assim que deve ser!

Pequena AbelhaO mínimo sobre Pequena Abelha é: o livro conta a história de duas mulheres bem diferentes entre si: Pequena Abelha, uma refugiada nigeriana que vai para a Inglaterra fugindo do massacre em seu país, e Sarah, jornalista britânica e mãe de um garoto. As duas se cruzaram em um dia fatídico, em que uma delas teve que tomar uma decisão que mudaria, para sempre, a vida das duas. O livro então trata de traçar o tal dia, as consequências dele e a forma como as duas tentam vencer os traumas deixados. E dizer mais do que isso já estragaria seriamente a surpresa.

Chris Cleave estruturou Pequena Abelha atráves de capítulos em que, alternadamente, a Abelhinha e Sarah narram em primeira pessoa. Não vá esperando um livro fácil de ler. Pequena Abelha é triste, doloroso, provocativo. Mas é também uma experiência literária fascinante, principalmente nos capítulos narrados pela Pequena Abelha. Ela é uma garota sofrida, vinda de um ambiente totalmente inóspito, mas com um senso de pragmatismo quase mecânico, e uma visão peculiar da vida.

Todo mundo em minha aldeia gostava do U2. Todo mundo em meu país, talvez. Não seria engraçado se os rebeldes do petróleo estivessem ouvindo U2 em seus acampamentos na selva e os soldados do governo, ao mesmo tempo, estivessem escutando U2 em seus caminhões? Acho que todo mundo estava se matando e escutando a mesma música. E sabe de uma coisa? Na minha primeira semana no centro de detenção, o U2 também era o número um lá. Isso é uma coisa interessante sobre este mundo, Sarah. Ninguém gosta dos outros, mas todos gostam do U2.

O livro é daqueles que você vai querer ler com um marcador de textos na mão, porque várias passagens dão vontade de colecionar, de tão belas ou bem sacadas. E o autor mostra uma sensibilidade incrível. Confesso que me derreti em vários momentos (um em especial talvez seja a cena mais triste que já li na vida), e não me lembro de ter ficado tão envolvido em uma leitura antes, com tanta pena de chegar ao fim e ficar órfão da obra. Mas ao mesmo tempo, é daqueles livros que não se abandona após a leitura. Ele fica ali, martelando, refletindo, dando crias na nossa cabeça.

[...] peço-lhe neste instante que faça o favor de concordar comigo que uma cicatriz nunca é feia. Isto é o que aqueles que produzem as cicatrizes querem que pensemos. Mas eu e você temos de fazer um acordo e desafiá-los. Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: “Eu sobrevivi.”

Sim, falar sobre Pequena Abelha é muito difícil. E mesmo que eu enchesse zilhões de parágrafos, ainda assim não conseguiria te mostrar o quanto o livro é bom e vale a pena ser lido. Não é um livro fácil, eu já disse. Ele mexe com emoções profundas. Mas ninguém disse que as melhores experiências de leitura seriam as mais fáceis, não é mesmo?

Categoria: Livros, Resenhas

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8 comentários




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  • E eu já acho que o que estragou o livro foi esse suspense todo em torno dele. Eu li e não achei nada. Achei que o segredo entre as duas nem foi tão assim, sabe? Sei lá. O livro não me cativou mesmo. Não é um livro ruim! Mas espera mais.

    Gostei da arvorezinha de Natal ali… Como leio via Reader, só hoje eu notei… rsrsrsrs

    Smacks!

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    20 de dezembro de 2011 às 14:21
  • Gostei bastante da resenha, João! Tô numa fase de “fuga da tristeza” mas já coloquei na lista…

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    21 de dezembro de 2011 às 14:52
  • Ah, eu até já sei qual é o segredo, sem ler, só de se falar que tem um segredo entre as duas e tcharará.

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    João Paulo Mauler Reply:

    Olha que eu acho que não sabe não, hein! Só lendo pra descobrir… kkk

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    21 de dezembro de 2011 às 14:53
  • Tenho um problema com este livro: ganhei de presente de alguém de quem gostava muito, depois a coisa desandou e toda vez que olho pra ele todo o drama da situação vem à tona, mas, espero, possa lê-lo com calma um dia, e com a mente aberta e a edicação que ele merece. Daí volto aqui para comentar minhas impressões ;)

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    24 de dezembro de 2011 às 16:06
  • Izabel disse:

    Nossa, fiquei super curiosa para ler esse livro. Irei adquiri-lo o quanto antes, rs. Gostei do blog! Parabéns!

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    João Paulo Mauler Reply:

    Izabel, aproveita que eu tô sorteando uma cópia dele aqui no blog. Entra lá e quem sabe a sorte fica do seu lado?
    http://www.fosforo.blog.br/para-um-2012-feliz/

    Obrigado pelo carinho!

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    1 de janeiro de 2012 às 14:35
  • [...] que ele mais gostou em 2011: Pequena Abelha, de Chris Cleaver. Saiba aqui como participar, e leia aqui a  resenha dele sobre o livro. Boa sorte, e boa [...]

    1 de janeiro de 2012 às 14:57

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