Sapatos
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Simpática essa crônica do Antônio Prata na Folha de ontem. Leia:
SEXTA A tia Clara ligou avisando: se eu quisesse procurar pelos sapatos do tio Estevão tinha que chegar cedo, no dia seguinte. À tardinha vinham os filhos, levariam os pertences que lhes interessassem e o resto seria doado ao Lar Escola São Francisco. Nove da manhã de sábado eu tocava a campainha, pronto para começar a minha busca.
Poucos objetos estiveram mais ligados a uma pessoa do que aqueles sapatos ao meu tio Estevão. Dos 84 anos que passou sobre a Terra, 60 foram calçando o mesmo modelo. Difícil descrevê-los, não porque tivessem algo de excêntrico, mas por serem demasiadamente comuns -se é que algo pode ser demasiadamente comum: eram de couro preto, quatro furos pro cordão, sola de madeira, salto de borracha. No colegial, quando aprendi sobre o mundo inteligível de Platão, aquele no qual residiriam os ideais de todas as coisas, logo pensei nos sapatos do tio Estevão, os paradigmáticos sapatos do tio Estevão pairando lá no alto, muito acima dos canos altos, Melissinhas, escarpins e outras sombras projetadas na balbúrdia da caverna.
Meu tio não gostava de balbúrdia. Casou-se com a namorada da escola, teve um filho e uma filha, foi fiel à esposa, à marca de desodorante, ao nó da gravata, à sopa no jantar -e, claro, aos sapatos. Descobriu-os numa viagem à Franca, a trabalho, em 1952. Muitos anos atrás, num Natal, contou-me que bastou calçá-los para saber que “aquela questão, pelo menos, estava resolvida”. Lembro que achei graça em sua postura, como se a vida consistisse numa série de questões a serem resolvidas, uma lista na qual fôssemos ticando as colunas. Casamento: risca. Carreira: risca. Filhos: risca. Sapatos: risca.
Como o trabalho o levava todo ano à Franca, tio Estevão comprava um par a cada viagem e assim viveu tranquilo -pelo menos, no que se referia àquela “questão”- até 1990, quando o mercado abriu-se para o mundo e a fábrica, incapaz de competir com a concorrência chinesa, faliu. O dono, a essa altura já amigo do meu tio, telefonou-lhe para lamentar-se, para maldizer o governo, os chineses, a vida e avisar que os últimos pares do estoque eram seus. Vinte e dois pares, um presente por 38 anos de fidelidade.
Meu tio brincava, desde então, para desespero da tia Clara, que quando o último par se gastasse ele morreria. Segundo minha tia, na segunda-feira à noite ele sentou-se na cama, olhou os sapatos em petição de miséria e, calmo, como se viesse há muito se preparando para aquele momento, disse: “Já era”. No dia seguinte, comentou, iria provar uns mocassins -mas não chegou a ver o dia seguinte.
Na manhã de sábado, revirei cada gaveta, cada armário, cada cômodo da casa. Tinha a esperança de que, em sua última noite, meu tio não tivesse jogado no lixo os sapatos que o acompanharam pela vida inteira, houvesse guardado ao menos um pé, como lembrança.Por que eu queria tê-lo? Seria um símbolo da persistência? Da teimosia? Da busca pela imanência em meio à transitoriedade? Não sei. Não os encontrei. Claro. Era de se esperar que um homem pragmático a ponto de passar 60 anos com o mesmo sapato não fosse de guardar velharias como souvenirs. As questões, quando se resolvem, se resolvem. Morte: risca.
Categoria: Crônicas
Tags: Antônio Prata



O livro começa com um ex-historiador, agora um “terapeuta de vidas passadas”, contando sobre uma de suas clientes, uma mulher que descobre que, em outra encarnação, fora uma das mulheres do harém do Rei Salomão. A partir daí, é a própria quem toma a palavra, contando sua história. A mulher, cujo nome não é dito em nenhum momento, é a filha de um chefe tribal que, por razões políticas, se casa com o Rei Salomão e se torna uma de suas 700 esposas (sim, 700!). Ah, e o mais importante: a mulher é feia, extremamente feia, talvez a mais feia das mulheres.

O segundo livro começa exatamente onde terminou o primeiro: a bordo da Coração de Ouro, nave que Zaphod Beeblebrox, o ex-presidente da galáxia, roubou no primeiro livro. Junto com ele está Ford Prefect, além de Arthur Dent e Trillian, os dois únicos terráqueos que sobraram no universo. Quando a nave começa a ser atacada pelos Vogons (uma raça extremamente detestável), o grupo acaba indo parar no tal restaurante do fim do universo, que fica exatamente onde o nome diz: no fim do universo. Sim, eles viajam no tempo e vão parar em um restaurante que revive a cada noite o momento em que o universo deixa de existir.