Quando vi o tema de abril do Desafio Literário, achei que teria dificuldade para escolher minha leitura e, mais que isso, que estranharia o estilo dos escritores orientais, já que nunca havia lido nada de um escritor daquelas bandas. Não podia estar mais enganado. Crônica de um Vendedor de Sangue (Companhia das Letras, 272 páginas) me fisgou logo no primeiro capítulo, e meu maior sofrimento foi chegar ao fim da leitura de um dos livros mais apaixonantes e delicados que já li.
O livro do escritor Yu Hua acompanha a vida de uma família chinesa nos idos dos anos 60, portanto em plena era maoísta. A obra conta a história de Xu Sanguan, um homem que logo no primeiro capítulo conhece a prática de vender sangue ao hospital local e, durante o livro, repete a prática várias vezes, com diferentes propósitos, como agradar uma mulher, cuidar da saúde de um filho mas, principalmente, alimentar a família durante a Grande Fome. Xu Sanguan se casa com Xu Yulan, uma mulher cuja principal diversão é fazer escândalos, de preferência no meio da rua para todos os vizinhos ouvirem. Se ela “passa três dias sem se sentar na soleira da porta e armar um escândalo, começa a se sentir desconfortável, como se estivesse com prisão de ventre há uma semana”. Os dois têm três filhos, todos homens: Yile, Erle e Sanle. Porém, logo fica claro que Yile não é filho de Xu Sanguan, mas de He Xiaoyong, um homem que deu uns amassos em Xu Yulan. Xu Sanguan não aceita o bastardo, trata o menino diferente dos outros dois filhos, e chega a querer devolvê-lo para He Xiaoyong, mas acaba ficando com o garoto, que calha de ser seu filho favorito.
O estilo de escrita de Yu Hua é bem direto, seco, ele praticamente se limita a narrar os fatos, sem julgamentos de valor ou interpretação das emoções dos personagens, característica, aliás, que acredito ser típica dos orientais. Ainda assim, a história é de uma sutileza incrível, mostrando as relações de uma família em que, apesar de todos os problemas e confusões, os membros se amam e se protegem. É de arrepiar a passagem em que, no dia de seu aniversário, Xu Sanguan, sem ter comida para oferecer à mulher e aos filhos, resolve cozinhar com a imaginação o prato preferido de cada um.
“O que eu pergunto é: o que vocês querem comer de verdade? Como é meu aniversário, vou preparar com a minha boca uma refeição para cada um, e vocês vão comer com os ouvidos. Não vão poder comer com a boca porque não existe nada para comer, mas apurem os ouvidos, porque a qualquer momento vou começar a cozinha. Cada um pode pedir qualquer coisa.”
Crônica de um Vendedor de Sangue é um livro delicioso de se ler, pelo estilo do autor, e principalmente pelos vários momentos cômicos da obra, um humor quase involuntário, seja nos momentos em que Xu Yulan reclama da vida na soleira da porta, quando Xu Sanguan sai falando para os vizinhos sobre o acidente que He Xiaoyong sofreu, ou na ótima cena em que Xu Sanguan alinha os filhos para analisar suas aparências e concluir se Yile é ou não seu filho legítimo.
Foi o primeiro livro que li de um autor chinês, e confesso que gostei bastante. Crônica de um Vendedor de Sangue é daqueles livros que você não tem vontade de parar de ler, se pega sorrindo (ou mesmo gargalhando) durante a leitura, e quandochega à última página tem vontade de começar tudo de novo ou, melhor ainda, correr atrás de todos os outros livros do autor.
Categoria: Livros, Resenhas
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