28/out 2011

Glória Feita de Sangue (1957) – Projeto Stanley Kubrick

O ano era 1956. Stanley Kubrick tinha conseguido certo reconhecimento com O Grande Golpe, e a MGM, o maior estúdio da época, se interessou pelo trabalho do diretor. Porém, a parceria da MGM com a Harris-Kubrick, empresa do diretor com o produtor James B. Harris, acabou não se concretizando. Por sorte, Kubrick tinha escrito, junto com Jim Thompson, um roteiro baseado no livro Paths of Glory, de Humphrey Cobb. Eles bateram à porta da United Artists (que já havia produzido O Grande Golpe), que topou financiar o projeto, desde que eles tivessem uma estrela como protagonista. Mais uma vez a sorte estava ao lado do jovem diretor. Kirk Douglas, que sem dúvida se encaixava na exigência, tinha visto e gostado do último filme de Kubrick, e aceitou estrelar a adaptação.

Glória Feita de Sangue

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957) tinha tudo para dar errado. O roteiro, polêmico, tem um discurso antimilitarista e uma visão nada orgulhosa da atuação francesa na Primeira Guerra (tanto que foi banido da França quando lançado). O filme não tem nem uma mulher no elenco (à exceção de Christiane Kubrick, que aparece na emocionante cena final) e, graças ao alto salário de Douglas, o longa não rendeu nem um centavo. No entanto, Kubrick teve a chance de fazer uma produção bem mais caprichada, usando várias câmeras, takes e efeitos que até então ele não tinha tido acesso. E com isso fez um filmaço!

O filme conta a história de uma divisão do exército francês que recebe uma missão considerada impossível, do alto comando: tomar uma colina controlada pelos alemães. Quando a missão fracassa, o general Mireau (George Macready), que ordenou o ataque procura um bode espiatório, levando um trio de soldados à corte marcial, sob a acusação de covardia frente ao inimigo. Em defesa desses homens atua o chefe da tropa, Coronel Dax (Douglas).

O filme mostra a guerra de forma crua e impiedosa, ao contrário da visão romantizada e heroica que era comum nos filmes da época. Não é à toa que o filme causou polêmica. O exército é mostrado como uma instituição cínica e cruel, onde o poder (e seu abuso) vale mais que tudo. Aqui, mais uma vez, Kubrick apresenta personagens longe de serem bons e nobres. Se Mireau chega a ser caricato (apesar de nunca exagerado) na sede de ver suas ordens cumpridas, ao mesmo tempo é um personagem extremamente plausível.

Glória Feita de Sangue

Tecnicamente, Kubrick fez um filme visualmente impactante. Cru e muito bem realizado, o longa chega a ser incômodo em alguns momentos, como na sequência do ataque fracassado, tamanha a realidade que a cena passa. O perfeccionismo do diretor fica evidente (diz-se que ele gastou toneladas de dinamite só em testes para conseguir a explosão perfeita), com cenas muito bem produzidas, mesmo vistas mais de 50 anos depois.

No fim das contas, Glória Feita de Sangue é um filme maravilhoso, sem dúvida o melhor de Kubrick até então. Com uma história interessante (apesar de nada feliz), o filme emociona muito na cena final, quando uma jovem alemã (vivida por Christiane Kubrick, que viria a se casar com o diretor no ano seguinte) é obrigada a cantar para o exército francês. Mais que isso, o filme abriu caminhos para Stanley Kubrick, que iria a seguir dirigir sua primeira superprodução, graças a Kirk Douglas.

Categoria: Cinema

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