04/fev 2013

O Lado Bom da Vida [Crítica XLIII]

Patrick Solitano Jr. (Bradley Cooper) é um cara de 30 e poucos anos, professor de história, que um dia flagra a mulher, Nikki, com outro homem e simplesmente surta. Após agredir o amante ele é enviado a uma instituição psiquiátrica, onde vive os próximos oito meses. Ele sai da instituição e volta para a casa dos pais (Robert de Niro e Jacki Weaver), disposto a reconquistar Nikki. Mas isso não vai ser fácil, isso porque o rapaz ainda está visivelmente instável, e também graças a uma ordem de restrição que o impede de se aproximar da ex-esposa.

O Lado Bom da Vida

Mas a grande virada na vida de Pat, e que faz de O Lado Bom da Vida um filme tão bom, acontece mesmo quando ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher que, após a morte do marido, também não está nas melhores condições mentais. E é da dinâmica que se cria entre os dois que surge toda a beleza do filme. Tanto um quanto o outro estão desequilibrados, pecam pela falta de traquejo social e, ainda assim, precisam um do outro. Pat tem a esperança de que Tiffany o ajude a se reaproximar de Nikki, entregando a ela uma carta. Mas Tifanny, em troca, exige que Pat participe, junto com ela, de um concurso de dança.

O Lado Bom da Vida

Há ainda a família de Pat, comandada por um excelente Robert de Niro, como há muito tempo não se via em cena, como o pai obcecado por futebol e que comanda um grupo de apostas em resultados de jogos. Aliás, as cenas mais fortes são aquelas em que Pat, em pleno desequilíbrio, confronta a família.

O Lado Bom da Vida é um filme cujo principal trunfo é um elenco extremamente azeitado, e muito bem conduzido pelo diretor David O. Russell. Não é à toa que o longa recebeu indicações em todas as categorias de atuação. A interação entre Cooper e Lawrence é fantástica. Ele consegue passar toda a ansiedade de Pat, um sujeito agitado mas que em alguns momentos age de forma infantil, enquanto ela entrega o sofrimento autodestrutivo de Tifanny com maestria, e quando os dois estão juntos em cena, dá pra se sentir em um frenético jogo de ping-pong (os momentos em que os dois se encontram correndo são ótimos).

O Lado Bom da Vida

O Lado Bom da Vida pode não ser um filme perfeito. De fato, principalmente nas sequências finais, ele se entrega a vários clichês do gênero. Mas ainda assim é um longa que nos prende do início ao fim e, por mais que em alguns momentos tenhamos acontecimentos inverossímeis, impossível não se importar e torcer por aquele personagens.

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25/jan 2013

As Aventuras de Pi [Crítica XLII]

Nada havia me preparado para a experiência de assistir a As Aventuras de Pi. O título, que mais parece de filme da Sessão da Tarde, não ajuda. A sinopse (o  garoto que se vê à deriva no oceano junto com um tigre) tampouco consegue revelar tudo o que o longa representa. A verdade é que As Aventuras de Pi é um filme cheio de significados, delicado, divertido e extremamente belo. Ang Lee conseguiu, em meio à sua filmografia (quase) irretocável, dirigir aquele que talvez seja seu melhor filme.

As Aventuras de Pi

Pi é um garoto peculiar. Não só pelo nome, dado em homenagem a uma piscina pública francesa (!), mas pelo seu interesse precoce por religiões, chegando a se tornar seguidor de três delas simultaneamente. O Pi adulto (Irrfan Khan) conta a um escritor canadense (Rafe Spall) as histórias de sua infância, vivida no zoológico administrado pela sua família, que culminam no momento em que ele, agora adolescente (Suraj Sharma, um achado que atua brilhantemente), os pais, o irmão e todos os animais do zoo partem em um cargueiro rumo ao Canadá. O navio naufraga, e Pi se vê em um bote salva-vidas com uma zebra, uma hiena, um orangotango e o feroz tigre Richard Parker. Não bastasse Pi ter que sobreviver sozinho no meio do oceano, ainda deve administrar a relação de amor e ódio que se instala entre ele e Richard Parker. Haverá que se lembre da relação entre o personagem de Tom Hanks e a bola Wilson em Náufrago.

As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi certamente representam uma experiência pessoal única para cada espectador. Toda a história é mostrada através das lembranças e impressões do próprio Pi adulto, e por isso é cercada de metáforas e momentos de interpretação aberta. Isso se revela especialmente no final, quando o personagem cumpre a promessa feita ao seu interlocutor logo no começo de, com sua história, provar a existência de Deus.

Neste ponto, faço um parêntese para dizer que este texto se baseia exclusivamente no filme de Ang Lee. Não li o livro de Yann Martel antes de assisti-lo (estou lendo agora), e nem quero entrar na polêmica que envolve a história original escrita pelo brasileiro Moacyr Scliar – sobre isso vale a pena ver o vídeo que minha amiga Juliana, do batom de Clarice, fez falando sobre os livros de Martel e Scliar e o filme de Ang Lee. Recomendo que você veja. Minhas impressões sobre o livro de Martel e as possíveis comparações com a adaptação cinematográfica falarei quando resenhar o livro, o que não deve demorar.

Visualmente, As Aventuras de Pi é um delírio. Belíssimo do começo ao fim, as cenas no oceano são de tirar o fôlego. Mas o longa é todo perfeito em sua ambientação, cenografia e, assustadoramente, nos efeitos especiais. Basta saber que boa parte do longa foi filmado em um tanque e que o tigre Richard Parker, durante a maior parte do tempo em que aparece, é uma criatura criada digitalmente. Registre-se também que a versão em 3D do filme tem encantado as plateias, pela forma como a tecnologia se integra à história e aumenta a beleza das cenas. Mas, infelizmente, assisti ao filme na versão tradicional, então nem posso opinar a respeito.

As Aventuras de Pi

Comecei o texto dizendo que nada me preparara para a experiência de ver As Aventuras de Pi. Da mesma forma, sei que posso escrever páginas e páginas nesta crítica, e ainda assim não conseguirei transmitir tudo o que o filme pode representar para quem o vê. Por isso mesmo, não perca a chance de ter a experiência de ver uma das mais belas histórias que já vi ser contada. E para aproveitar ainda mais o arroubo visual criado por Ang Lee, faça-o no cinema, combinado?

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15/jan 2013

Django Livre [Crítica XLI]

Comecei a ver Django Livre sem muita expectativa. Apesar de achar Bastardos Inglórios um filme fantástico, e gostar de Kill Bill e Pulp Fiction, nunca fui assim um aficcionado por Quentin Tarantino. Confesso que alguns momentos do longa (a palavra longa é bastante adequada: o filme beira 3 horas de duração) achei um pouco cansativos mas, estranhamente, algo me fazia não piscar os olhos e esperar ansiosamente até o fim dos créditos. E, o mais importante: ter chegado ao final da projeção com um largo sorriso no rosto, e a certeza de ter visto um dos melhores filmes do ano.

Django Livre é um típico Tarantino: violento ao extremo, cheio de humor negro (oops. trocadilho infame) e com uma pitada de nonsense. Aqui a história se passa no famoso velho oeste americado, em plena era da escravidão, numa homenagem de Tarantino aos filmes western que ele assistia quando mais novo. É nesse contexto que o dentista King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas, conhece Django (Jamie Foxx), um escravo que ele liberta para que o ajude a encontrar um trio de irmãos procurados. A partir daí surge uma amizade entre os dois homens. Django se alia a Schultz em suas “caçadas” durante o longo inverno e, em troca, o dentista se propõe a ajudar o ex-escravo a encontrar sua amada, a escrava Broomhilda (Kerry Washington), de quem ele foi separado durante uma tentativa de fuga. Eles descobrem que a jovem agora é propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), e arquitetam um plano para tomar Broomhilda dele. Mas no meio ainda há Stephen (Samuel L. Jackson), escravo liberto que serve Candie, mas meio que comanda a casa de seu jovem senhor.

Django Livre

E durante a história Tarantino não poupa tiros barulhentos, sangue espirrando e violência desenfreada. Mas nada parece gratuito. Afinal, estamos em uma época em que realmente as coisas eram resolvidas no tiro e no laço, e o diretor não faz concessões. Aliás, ele tem sido chamado de racista justamente por ter mostrado exatamente como as coisas aconteciam, com toda a brutalidade e falta de sutileza tão comuns à vida real. Bobagem! Django Livre não é racista pois, pelo contrário, faz com que a gente saia do cinema com ainda mais repulsa a atitudes racistas. A coisa toda é emoldurada por uma trilha sonora brilhante, onde cada canção se encaixa perfeitamente na cena que acompanha, e é formada por gêneros que vão do blues do Mississipi do século XIX ao hip hop dos anos 2000.

Mas o filme não estaria à beira da genialidade não fosse o elenco. Jamie Foxx brilha como o escravo liberto Django, e é muito fácil torcer pelo homem de poucas palavras e que atrai a atenção para si quando está em cena. Falar de Christoph Waltz é chover no molhado: o cara era a alma de Bastardos Inglórios, e agora volta a puxar para si a carga de protagonista, com um personagem ganancioso, violento, mas ao mesmo tempo humano. Se, perto dessa profusão de estrelas, Leo DiCaprio não se destaca tanto, o mesmo não dá pra dizer de Samuel L. Jackson. Quase irreconhecível, ele está perfeito como o ex-escravo tão racista quanto um homem branco, que faz as vezes de vilão na metade final do filme. E é daqueles vilões que a gente tem vontade de entrar na tela para dar uns cascudos, o que só prova que a atuação dele é irretocável.

Django Livre

Violento, irônico, cheio de diálogos espertos, cômico (a cena em que um grupo de homens discute sobre usar ou não um saco cobrindo o rosto é de rolar de rir) e profundamente inteligente: Django Livre é daqueles filmes que você pode assistir até já esperando como vai reagir mas, acredite em mim, certamente vai sair do cinema surpreso e com um sorriso de satisfação no rosto.

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27/dez 2012

Argo [Crítica XL]

Uma das coisas mais facinantes do cinema é conseguir dar vida a histórias que nunca veríamos fora das telas, criar tramas impossíveis de serem vividas no mundo real. Pois, se isso é verdade, Argo subverte totalmente a lógica. A princípio, a história do terceiro longa dirigido por Ben Affleck é inverossímil, mas o mais impressionante é que, tiradas as pequenas liberdades narrativas, tudo o que acontece ali é a mais pura verdade.

Argo

Estamos no fim dos anos 70, e após a Revolução Islâmica no Irã, seis americanos estão refugiados na embaixada canadense no país. Em meio a uma grave crise diplomática entre EUA e Irã, o espião da CIA Tony Mendez (Affleck) é convocado para criar um plano de resgate ao grupo. A solução encontrada por Mendez é fingir que está produzindo um filme de ficção científica cujas filmagens se realizariam no Irã, e os refugiados seriam parte da equipe de produção. Mas para que o plano não tenha furos e soe real frente ao governo iraniano, o agente precisa abrir uma produtora, publicar notícias sobre o filme em revistas especializadas, e até organizar uma festa de pré-lançamento com direito a leitura do roteiro do falso longa-metragem. O título do filme? Argo.

Affleck consegue criar em Argo uma história envolvente, daquelas que fazem a gente ficar com a respiração presa por um bom tempo, mesmo já imaginando o que possa acontecer à frente. Ao mesmo tempo, há os momentos de alívio cômico (nada forçados, devo dizer), quando temos em tela os personagens de Alan Arkin e John Goodman, dois figurões de Hollywood responsáveis por, em Los Angeles, dar um ar de realidade ao falso filme. Não é à toa que Argo é um dos francos favoritos a uma penca de indicações (e estatuetas) no Oscar 2013.

Argo

 Ben Affleck se mostra um diretor de mão cheia, fazendo escolhas bem acertadas para contar a história. A fotografia, por exemplo, lembra um filme realizado realmente em 1979 e, em alguns momentos, como que para lembrar-nos que aquilo tudo é verdade, somos apresentados a imagens e sons reais da época, como um discurso do presidente Jimmy Carter, por exemplo. Argo é realmente a prova de que a realidade pode ser mais fantástica que a ficção.

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31/jul 2012

Dear Zachary: A Letter to a Son about his Father

O médico Andrew Bagby, de 28 anos, foi encontrado morto em 2001, assassinado com cinco tiros pela ex-namorada que não aceitou o término do relacionamento. Durante o funeral, seu melhor amigo, Kurt Kuenne descobre que o rapaz adorava fotografar, fato que, apesar da intimidade entre eles, Kurt desconhecia. O cineasta então resolve fazer um filme entrevistando pessoas próximas a Andrew, para descobrir tudo sobre o amigo falecido. Porém, logo que começa a colher os depoimentos, descobre que Shirley, a mulher que matou Andrew, está grávida dele. O filme muda de objetivo então: a ideia agora é apresentar Andrew a Zachary, o filho que nunca virá a conhecer o pai.

Dear Zachary
O pequeno Zachary com a avó

A sinopse acima, do documentário Dear Zachary: A Letter to a Son about his Father (Querido Zachary: uma carta para um filho sobre seu pai) nem de longe consegue antever a experiência devastadora de ver um dos filmes mais contundentes e belos a que já assisti. Prepare-se para se emocionar com a linda declaração de amor que Kurt prepara para o amigo. Para se revoltar com a justiça canadense, que não só deixa a assassina em liberdade, como obriga que David e Kathleen, pais de Andrew que brigam com a mulher pela guarda de Zachary, tenham que conviver com Shirley diariamente. E para ficar boquiaberto com o final do filme, cuja trama se revela mais eletrizante e surpreendente do que qualquer obra de ficção. Por isso mesmo recomendo que você não procure informações sobre o caso antes de assistir ao filme, ou você vai perder uma das grandes surpresas do longa.

Talvez o maior mérito de Dear Zachary seja a montagem inteligente e delicada que Kurt faz das imagens, enchendo os depoimentos de significado. Chega a ser chocante o momento em que os pais de Andrew contam como reconheceram o corpo do filho no hospital, entremeado por imagens do próprio Andrew quando criança, escondendo o rosto. Ou quando uma cena caseira em que Kurt, ainda menino, diz ao amigo que voltaria no tempo para evitar que ele morra, é suficiente para mostrar o quanto a perda de Andrew é dolorosa para Kurt. E como não ir às lágrimas no momento do primeiro encontro entre o cineasta e o pequeno Zachary?

Dear Zachary
Andrew Bagby e o amigo Kurt Kuenne

Falar mais sobre o filme seria estragar a surpresa e a emoção de vê-lo. Portanto, se essa resenha puder despertar apenas um sentimento em você, que seja o de assistir a esse belíssimo documentário, e aí minha missão estará cumprida. Só certifique-se de ter um bom estoque de lenços de papel ao seu lado: tenho certeza que você vai precisar deles.

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09/jul 2012

O Espetacular Homem-Aranha

Foi em 2002 que o diretor Sam Raimi deu vida nos cinemas a um dos personagens mais queridos dos quadrinhos: o Homem-Aranha de Tobey Maguire foi um sucesso, e deu origem a duas continuações com igual reconhecimento de público, apesar da crítica se dividir quanto aos méritos da trilogia. Corta para dez anos depois: Marc Webb é o diretor do reboot da franquia, e O Espetacular Homem-Aranha recria a origem do herói, com novo elenco e novo vilão. Muita gente criticou o recomeço tão precoce, mas a verdade é que o Homem-Aranha de Andrew Garfield é muito, muito bom!

O Espetacular Homem-Aranha

A história é basicamente a mesma: Peter Parker (Garfield) é um adolescente tímido, inteligente e meio nerd, apaixonado por ciência, criado pelos tios, que um belo dia é picado por uma aranha radioativa e ganha poderes como força, agilidade e uma espécie de “sentido aranha”. Logo ele cria um uniforme, desenvolve um lança-teias com um polímero sintético (ao contrário da trilogia anterior, em que a teia era orgânica) e começa a combater criminosos e se balançar entre os prédios de New York. Aqui também há uma garota, mas não é Mary Jane, mas sim Gwen Stacy (a linda Emma Stone). Mas se é tudo parecido, afinal, porque assistir a O Espetacular Homem-Aranha?

Simples: porque o novo longa consegue captar aquela que é a essência e o mais bacana do personagem: o fator humano. Peter Parker é um adolescente cheio de questões, tentando se definir e encontrar seu lugar no mundo (chega a ser emblemático o momento, perto do fim do longa, em que uma professora diz existir apenas um tipo de história a ser contada: “quem sou eu”). Por isso é tão divertido acompanhar a história de Peter à medida em que ele tenta descobrir suas origens, ao mesmo tempo em que tem que lidar com os novos, estranhos e inexplicáveis poderes. Uma das cenas mais bacanas é quando, no metrô, Peter se envolve em uma briga e ao mesmo tempo pede desculpas por estar lutando.

O Espetacular Homem-Aranha

E aí chegamos ao par principal: Andrew Garfield e Emma Stone, como Peter e Gewn, são a razão do filme. Ele é o Peter Parker perfeito, dosando a timidez e o bom humor característicos do personagem. Ela é linda, delicada e forte. Juntos, os dois têm uma química perfeita, e cada cena em que eles aparecem traz a garantia de um sorriso no rosto. A história deles é tão forte que sobrepõe até a trama com o vilão do filme, o Dr. Curt Connors/Lagarto (Rhys Ifans). Aliás, o filme perde um pouco da força justamente na segunda metade, quando se concentra no embate Homem-Aranha x Lagarto.

Os efeitos especiais do longa são espetaculares. Ao contrário do longa de Raimi, aqui o Homem-Aranha que balança entre os prédios é fluido, verossímil, e parece real, e não um efeito em CGI. As cenas que acompanham o Aranha “voando” pela cidade são de tirar o fôlego. Os efeitos em 3D, ao contrário do que se espera são discretos, e não atrapalham a experiência.

O Espetacular Homem-Aranha, enfim, é daqueles filmes que agradam em cheio a qualquer fã, pois traz à tona aquilo de melhor que o Aranha tem. É um filme para ser visto na tela grande, para rir, se emocionar e ficar na ponta da cadeira até a sequência final. E sair do cinema com um sorriso no rosto e a certeza que valeu a pena ser feito um reboot do personagem.

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28/mar 2012

Água Para Elefantes

Confesso que, desde o lançamento de Água Para Elefantes, no ano passado, tinha certo preconceito em assisti-lo. A presença de Robert Pattinson, o vampiro brilhoso de Crepúsculo, como protagonista me afugentou dos cinemas. Porém, zapeando pela TV no fim-de-semana, acabei caindo nos minutos iniciais do longa e, surpresa, fui fisgado pela história.

Água Para Elefantes

O longa conta a história de Jacob Jankowski, um jovem quase-veterinário (ele perde a prova final que lhe daria o diploma) que, após a morte dos pais, se vê falido e sem ter onde morar. Ele acaba indo parar no trem que transporta o circo Irmãos Benzini, do inescrupuloso August (Christoph Waltz). Após quase ser jogado do trem em movimento (prática aparentemente comum no dia-a-dia de August), Jacob ganha uma vaga como veterinário do circo, e se apaixona pela principal estrela do espetáculo, a bela Marlena (Reese Whiterspoon) que, lógico, é esposa de August. Logo, Jacob se torna o treinador de Rosie, uma elefanta que acaba por se tornar a principal atração do circo.

Água Para Elefantes é um filme que não entrega atuações consistentes. À exceção de Christoph Waltz, que chega a dar náuseas de tão convicente sua personificação do cruel e mercenário dono do circo, as outras presenças são apenas razoáveis. Pattinson, se não estraga o filme, também não empolga como protagonista. Reese Whiterspoon, apesar de estar linda (0 que não é muito comum, convenhamos), também não entrega nada fora do comum. E a química entre os dois personagens é quase nula. Por isso mesmo, o longa é muito mais empolgante quando mostra a rotina dos funcionários do pobre circo do que quando se dedica ao triângulo amoroso formado. Nesse sentido, decepciona um pouco o fato de Rosie, a elefanta ao qual o título se refere, praticamente sumir da trama em dado momento, somente para reaparecer no clímax, com uma função mais que previsível.

Água Para Elefantes

No fim das contas, Água Para Elefantes é um filme com uma história interessante, daquelas que prendem a atenção, mesmo que involuntariamente. Pode não ser nenhum clássico, mas diverte, entretém, cativa, provoca risos e, porque não, lágrimas também. Mas se você quer um longa circense que realmente emociona, não deixe de assistir ao nacional O Palhaço, de Selton Mello.

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27/mar 2012

Jogos Vorazes (o filme)

Quem acompanha minimamente este blog sabe o quanto eu estava esperando pela estreia de Jogos Vorazes nos cinemas. O dia 23 de março era uma data marcada no calendário já há alguns meses, e claro que na sexta-feira corri para assistir à primeira parte da trilogia de Suzanne Collins, que muita gente diz que é o novo Crepúsculo (pffff). Antes de dizer qualquer coisa sobre o filme, preciso falar que esta resenha não vai ser daquelas que você está acostumado a ler por aqui. Isso porque não consigo dissociar a experiência que tive com o filme daquela que eu já trazia da leitura dos livros. Por isso é impossível não traçar comparações entre os dois produtos. Mas se você não leu o livro, não se preocupe, vou falar pra você também.

Jogos Vorazes

Jogos Vorazes, você sabe, é a história de um futuro distópico, em que Panem (no passado conhecido como os EUA) é um país dominado por uma capital totalitária e 12 distritos submissos a ela. Nesse cenário, todo ano são realizados os Jogos Vorazes, um evento/reality show em que cada distrito deve enviar um casal de jovens para uma disputa de vida e morte, onde apenas aquele que sobreviver por último é consagrado o campeão. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) acaba se voluntariando para os jogos, a fim de proteger a irmã, e representa o paupérrimo Distrito 12 junto de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), o filho do padeiro que nutre uma paixão pela garota desde que a ajudou a não morrer de fome.

Jogos Vorazes é um filme bastante fiel ao livro que o originou, apesar de ter algumas diferenças marcantes. A relação entre Katniss e Gale (Liam Hemsworth), por exemplo, fica muito mais rasa do que no original, e a própria personalidade arredia e rebelde da garota aqui aparece amenizada. É lógico que uma transposição de um livro para o cinema sempre sofre adaptações. Ainda mais quando o livro é narrado pela personagem principal e é recheado de pensamentos e impressões dela, além de ser extremamente violento. Apesar disso, o roteiro do longa tem sucesso em transpor para as telas a história criada por Suzanne Collins, abrandando a violência e tomando algumas liberdades em relação ao texto original, e acredito que quem leu o livro não vai se sentir traído pelo filme. Quem não leu talvez sinta um pouco de falta de mais detalhes sobre os Jogos, mas nada que atrapalhe a experiência de Jogos Vorazes.

Jogos Vorazes

 O filme se destaca principalmente em dois aspectos: o visual e o elenco. A arquitetura da Capital, e a bizarrice de seus habitantes é bem aquilo que quem leu o livro esperava ver, contrastando com a pobreza e simplicidade do Distrito 12. É verdade que os efeitos especiais de Jogos Vorazes não sá lá essas coisas (justificável pelo fato do filme ter um orçamento relativamente modesto, de 80 milhões de dólares), mas o diretor Gary Ross (de Seabiscuit e A Vida em Preto-e-Branco) acerta ao dar pouco tempo para que percebamos as imperfeições. O elenco é um show à parte. Jennifer Lawrence é a Katniss que todo mundo deve ter imaginado ao ler Jogos Vorazes, fato! Hutcherson consegue passar toda a serenidade e carisma de Peeta, e que delícia é a atuação de Stanley Tucci como um espalhafatoso apresentador de TV, ou Woody Harrelson como Haymitch, o mentor de Katniss e Peeta. Sem falar em Elizabeth Banks, perfeita na pele da afetada Effie Trinket.

Jogos Vorazes

Não é de se espantar que Jogos Vorazes tenha conquistado bilheteria de 150 milhões em seu fim-de-semana de estreia, ficando com a terceira maior bilheteria de uma estreia na história (a maior de todos os tempos se não considerarmos continuações). Com uma história envolvente, direção precisa, atuações calorosas e uma temática que gera inúmeras reflexões (além de divertir à beça, é claro), o filme realmente não se parece em nada com Crepúsculo. Mas se a comparação levar mais gente a ver e admirar a trilogia, e transformá-la na nova febre do cinema, que ótimo, porque Jogos Vorazes merece!

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08/fev 2012

Os Descendentes

Logo no começo de Os Descendentes (The Descendants), Matt King, o personagem de George Clooney, diz que todos os seus amigos acham que, só porque ele vive no Havaí, sua vida é uma alegria só, regada a surfe, bebidas e hula-hula. “Eles são loucos? Acham que somos imunes à vida?”, Matt pergunta. “Como é possível achar que nossas famílias erram menos, temos cânceres menos fatais, enxaquecas menos dolorosas?”.

Os Descendentes

As enxaquecas de Matt são sim bastante dolorosas. Sua esposa, Elizabeth, sofreu um acidente de barco, está em coma há 23 dias, somente esperando pela morte. Sua família está às voltas com a venda de um imenso terreno que vale uma verdadeira fortuna, herança de um parente distante na árvore genealógica, e Matt  é o responsável por escolher o comprador ideal. Sua filha mais velha, Alexandra (Shailene Woodley), é uma garota que vive caçando confusão com fugas e bebidas no colégio em que estuda, enquanto Scottie (Amara Miller) é uma menina precoce, que solta palavrões com uma facilidade incrível. Matt, que nunca foi um pai dos mais presentes, aproveita o momento difícil para tentar se reconectar às meninas. Para piorar a situação, ele descobre que a esposa tinha um caso com um agente imobiliário (Matthew Lillard), bem embaixo de seu nariz.

Os Descendentes

Os Descendentes é um belo filme, em que, mais do que a trama, que poderia muito bem ser a de um dramalhão mexicano, tem todo o seu destaque focado nos atores. George Clooney entrega sua melhor performance, em uma atuação cuja sinceridade comove e, se o mundo for justo, vai ganhar o Oscar. As meninas Shailene Woodley e Amara Miller dão show, apesar da pouca experiência em tela. E Judy Greer, que tem apenas três cenas como a esposa do amante de Elizabeth, brilha como nunca.

Os Descendentes

Um dos grande trunfos de Alexander Payne, o diretor de Os Descendentes, é conseguir dar ao filme um balanço entre um drama devastador e comédia para rir alto, contando uma história que é ao mesmo tempo trágica, mas dá aquela sensação de bem estar que só o bom cinema consegue. O Havaí, mais que um cenário, é personagem da trama. Acostumado a ver o 50º estado americano como um paraíso ensolarado e paradisíaco? Pois aqui o Havaí é visto quase sempre com tempo nublado, quase inóspito, assim como é a vida de Matt King e sua família.

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31/jan 2012

O Artista

Têm-se dito que O Artista (The Artist, 2011) é um retorno aos filmes mudos dos anos 20. Mas não. O longa é, sim, uma bela homenagem à era de ouro do cinema, mas consegue, ao mesmo tempo, ser extremamente atual. E se você torceu o nariz para O Artista por ser um filme mudo e preto-e-branco, pense melhor e assista: você pode estar perdendo um dos melhores filmes do ano, uma bela história de amor, que é também uma declaração de amor ao cinema.

O Artista

George Valentin (Jean Dujardin) é um grande astro do cinema, o mais aclamado dos atores. Após a estreia de seu mais novo filme, ele é fotografado junto a uma fã, e a imagem vai parar na capa dos jornais no dia seguinte. “Quem é essa garota?”, é a pergunta estampada nas manchetes. Não demora a descobrirmos que é Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma aspirante a atriz que logo terá a chance de contracenar com seu ídolo.

Mas a chegada do cinema falado muda tudo na indústria. Al Zimmer (John Goodman, fantástico) apresenta a Valentin a novidade, e o ator resiste à nova tecnologia. É nesse contexto que ela, Peppy, se torna a nova musa do cinema, enquanto George Valentin cai no ostracismo. Como companhia, lhe restam apenas seu mordomo (James Cromwell) e um simpático cachorro.

O Artista

A relação entre George e Peppy é o grande trunfo de O Artista. Primeiro porque Jean Dujardin e Bérénice Bejo estão soberbos nos papéis. Enquanto ele encarna o astro típico dos anos 20 (e o personagem foi inspirado em alguns deles, como Rodolfo Valentino), com toda a expressividade, ela interpreta com graça e doçura uma garota que nutre extrema admiração pelo ídolo, mesmo quando os papéis se invertem, e ela vira a grande estrela de Hollywood. A relação entre eles é linda, e faz o filme merecer todos os aplausos que tem recebido.

O Artista é um filme mudo, à exceção de duas cenas brilhantemente conduzidas. Mas nem por isso o som deixa de ter papel fundamental na trama. A trilha sonora criada por Ludovic Bource é maravilhosa, e dita o ritmo da trama, substituindo à altura os diálogos. Aliás, mesmo tendo pouquíssimas falas, traduzidas na forma de texto simples na tela, o filme consegue passar sua mensagem através dos olhares e trejeitos dos astros. E é tão representativo o fato de um filme sobre a transição do cinema mudo para o sonoro conseguir se comunicar plenamente sem precisar recorrer à fala.

O Artista

A direção de Michel Hazanavicius é maravilhosa. Ele consegue fazer um filme sem se utilizar do excesso de tecnologia visto no cinema atual, e nem por isso faz um filme menor. O Artista é um filme delicioso, recheado de referências ao cinema. É ao mesmo tempo uma história sobre a passagem do tempo, sobre se reinventar, sobre amizade e sobre valores sólidos. E que bela mensagem!

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