04/dez 2011

Questão de fidelidade

Achei esse texto perdido nos meus arquivos aqui. Ele foi produzido no finalzinho de 2007, para o laboratório prático de jornalismo online da minha faculdade. Em maio de 2008 publiquei a versão completa (que reproduzo aí embaixo), no meu blog da época. Como a matéria tem valor sentimental, resolvi colocar aqui. E acredito que o assunto ainda seja relevante, já que hoje em dia o vinil está até mais na moda do que 4 anos atrás. Ah, o texto tinha várias imagens ilustrando, mas só achei as que estão aí. Espero que você goste!

Robson Santos é um estudante de 19 anos que, como todo jovem de classe média, baixa músicas na Internet e tem uma vasta coleção de arquivos em MP3. Raquel Scotton, 20 anos, também não abre mão de seu acervo digital. Mas a semelhança entre os dois acaba aí. Coloque um disco de vinil nas mãos dos dois jovens. Robson vai olhar com desdém. Raquel mal conseguirá esconder o brilho nos olhos.

A reação de Robson é totalmente compreensível. Afinal, ele faz parte de uma geração que cresceu sob o domínio do CD como plataforma de distribuição musical, e nos últimos tempos tem aprendido a não depender de um meio físico para consumir música. Para ele, os LPs representam a contramão desse momento. “Hoje em dia até o CD está dando lugar ao MP3. O vinil é muito grande, pouco prático, estraga fácil, além de não ter o som tão puro quanto o do CD”, argumenta Robson.

Raquel não concorda. Para ela, os discos de vinil têm valor afetivo. “É uma sensação especial ouvir a música do jeito que ela foi produzida na época, é como se fosse uma viagem no tempo”. A garota, que gosta de Frank Sinatra, bossa nova e tropicália, concorda que o som do CD é mais limpo. “Mas tira a originalidade da obra, não é a mesma coisa ouvir uma música dos anos 30 ou 40 em CD”, contra-argumenta.

Go Back DiscosQuestão de fidelidade_ O analista de sistemas Mauro José Alvim é um aficcionado por LPs. Ele defende a maior qualidade do vinil em relação aos seus sucessores tecnológicos. “No CD as freqüências mais altas e baixas do som não são totalmente fiéis ao original. O disco de vinil, se tocado em um aparelho de qualidade, é o mais próximo que dá para chegar da execução ao vivo”, explica. MP3 então, nem se fala. “O arquivo de MP3 é tão pequeno porque o arquivo é comprimido, com perda de informação. Dizem que o que se perde é informação inaudível para o homem, mas não é verdade. As pessoas não percebem muitas vezes porque usam caixas de som ruins, como aquelas que vêm nos computadores”, complementa Mauro.

O DJ Erich Monteiro concorda que o som do vinil tem um charme especial, mas nas suas discotecagens usa somente CDs, e já planeja em um futuro próximo aderir exclusivamente ao MP3. “Hoje em dia é muito mais difícil e caro conseguir material em vinil para discotecar. Já em CD ou MP3 você tem acesso a quase tudo o que é produzido”, comenta o DJ. Ele lembra ainda que, com a evolução tecnológica, os efeitos de discotecagem que eram feitos só com os discos de vinil hoje são perfeitamente reproduzíveis nos equipamentos mais modernos.

O músico André Medeiros não concorda com a superioridade do som do LP, apesar de ser um consumidor do formato. “O que aconteceu foi que as primeiras remasterizações de discos antigos eram mal feitas, e o produto final não ficava tão bom. Mas hoje em dia a transformação já é feita com mais perfeição”. Ele é fã do vinil por uma razão mais simples. “O vinil é mais barato. Hoje eu só compro CD se tiver muita certeza do que quero. Com o LP não, eu gosto de garimpar, e sempre acho algum disco antigo bacana por um preço baixo”, explica.

Go Back Discos

De olho no passado_ Em um pequeno espaço onde não cabe nem um fusquinha estão alojados cerca de 3 mil LPs, nas contas de Samuel de Freitas. O comerciante mantém no bairro Mariano Procópio, em Juiz de Fora, a única loja da cidade que ainda trabalha exclusivamente com discos de vinil: a Go Back Discos. Ele garante que passam por lá todos os dias os mais diferentes tipos de consumidores. “Tem aqueles que estão procurando uma capa de disco para fazer decoração de festa, outros querem uma raridade do artista que gosta, e tem o colecionador. Esse é detalhista, o disco tem que estar do jeito que estava quando saiu da loja, e ele paga o preço que for por um disco raro”.

Na loja existem discos de diversos gêneros, níveis de raridade e, conseqüentemente, preços, que variam de R$ 1,00 a até R$ 300,00. “Tenho alguns discos aqui que não se acha em qualquer esquina. Um disco dos Mutantes original, por exemplo, não se acha por menos de R$ 100,00, porque é raro”. Ele concorda com André quando fala sobre as versões em CD de discos antigos. “Você ouve um Vicente Celestino remasterizado, e nota que não é a mesma coisa. É um absurdo isso, o som fica totalmente diferente, descaracteriza o trabalho original”.

Samuel fala com orgulho de seu acervo, que inclui uma versão rara do Álbum Branco dos Beatles, muitos discos de Cartola, Tim Maia e Nelson Gonçalves. Ele garante que tem acervo de fazer inveja em qualquer DJ, já tocou em algumas festas, mas não troca a loja pela discotecagem. “Isso aqui, mais do que um ganha-pão, é também um hobbie para mim”, orgulha-se o vendedor. “Aqui está tudo à venda, menos a minha coleção de discos da Furacão 2000. Desses eu não me desfaço de jeito nenhum”, completa.

Para todos os gostos_
Para muitos, o vinil é um formato condenado a desaparecer. A única fábrica que ainda produz as “bolachas” no Brasil fica no Rio de Janeiro, e a cada ano tem uma diminuição na produção. Por outro lado, alguns músicos ainda lançam versões especiais em vinil de seus trabalhos. O último disco da banda de rock Los Hermanos, por exemplo, teve uma edição de luxo limitada em vinil, assim como o álbum Cê, do cantor Caetano Veloso. Iniciativas como essas mostram que o formato ainda está vivo.

A verdade é que sempre vai existir um público fiel para os discos de vinil. O comerciante Samuel que o diga. Ele sustenta a si mesmo e à família já há três anos com os lucros da Go Back Discos, e não pretende abandonar o ramo tão cedo.

Go Back Discos

A questão da qualidade é polêmica, e passa muito mais por gosto pessoal do que por uma verdade técnica absoluta. Os que defendem o vinil dizem que o som é mais fiel, mais “quente”. Do lado do CD o argumento é o som puro, sem chiados, e a disponibilidade de todo o acervo musical moderno. Quem gosta de vinil está atrás dos discos que fizeram a história da música, mas não acha tão facilmente os lançamentos. De conclusivo nisso tudo, só mesmo o fato de que, não importa que novas tecnologias apareçam, as antigas sempre terão espaço, mesmo que seja somente para algumas pessoas, que as mantêm vivas.

Categoria: Música

03/dez 2011

Lolita (1962) – Projeto Stanley Kubrick

Após a experiência negativa de Spartacus, tudo o que Stanley Kubrick queria era ter controle absoluto sobre sua obra. Assim, mesmo com todas as dificuldades que cercariam a produção, Kubrick e seu sócio, o produtor James B. Harris, resolveram adaptar o polêmico livro Lolita, do russo Vladimir Nabokov. O próprio autor foi responsável pelo roteiro, e este teve que sofrer várias modificações, pois Kubrick não queria que Lolita viesse a ser proibido pela MPAA (Motion Pictures Association of America), a responsável pela censura dos filmes nos EUA. O tema espinhoso do longa viria a dificultar bastante o trabalho de Kubrick, mas também geraria um filme que, apesar de ser considerado por muitos uma peça menor da obra do diretor, teve importância fundamental em sua carreira.

Lolita

Lolita é a história de Humbert Humbert (James Mason), um professor de literatura de meia idade, que se apaixona perdidamente pela enteada Dolores Haze (Sue Lyon), cujo apelido é Lolita, de apenas 14 anos. Completamente obcecado pela menina, ele deixa esse amor proibido (e devidamente consumado, apesar de o filme apenas insinuar o fato) consumir sua vida. Humbert chega a se casar com a mãe da garota, apenas para permanecer ao lado dela, e após a morte da mulher foge com Lolita sem destino em uma viagem de carro. Mas o misterioso Clare Quilty (Peter Sellers) está sempre à espreita do casal. Humbert vai vendo sua razão fugir ao controle à medida em que se aproxima de um final trágico (não, isto não é um spoiler, o destino de Humbert já fica bem evidente desde a primeira cena).

A dificuldade em obter financiamento para Lolita levou Harris e Kubrick a realizarem a produção na Inglaterra, graças a um plano da época, que concedia reduções de custos consideráveis a filmes produzidos no país, com maioria do pessoal britânico. O que era uma forma de viabilizar a produção acabou se tornando um marco na carreira de Stanley Kubrick: ele realizaria boa parte dos seus filmes na Inglaterra a partir dali. Além disso, a química entre ele e Peter Sellers foi tão grande, e a atuação deste tão boa, que os dois voltariam a trabalhar juntos no próximo longa de Kubrick, o qual renderia um dos melhores filmes de Sellers desde sempre.

Lolita

Apesar do tema bastante polêmico, não achei Lolita tão chocante quanto pode parecer. Primeiro porque a relação entre Humbert e Lolita, de fato, permanece no campo das insinuações. Segundo, porque desde o começo do filme Humbert é mostrado como um sujeito detestável e desequilibrado, graças à ótima atuação de Mason (diz-se que Cary Grant teria recusado o papel por causa do tema). Finalmente, fica bem claro que Lolita não é nenhuma menininha inocente. Ela manipula Humbert e abertamente usa da obsessão do padrasto para se beneficiar.

Tecnicamente, Lolita não nega o fato de ser um trabalho de Stanley Kubrick. As cenas conseguem criar toda a tensão necessária à trama, como na ótima sequência da perseguição de carros, uma das melhores do filme ou, a minha favorita, a fantástica cena da conversa entre Humbert e Quilty na varanda do hotel. Aliás, o diálogo inicial entre os dois beira o brilhantismo, e cita até Spartacus.

- Você é o Quilty?
- Não, sou o Spartacus. Veio libertar os escravos?

Lolita

Lolita é um filme que consegue tratar de um tema difícil de uma maneira fantástica e sutil (esse, aliás, é o principal defeito do remake de 1997: ser muito exposto), e talvez por isso mesmo permaneça atual mesmo quase 50 anos depois.

Categoria: Cinema

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02/dez 2011

O Palhaço [Crítica XXIV]

O gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço. E você?

Estava com um pouco de receio de assistir a O Palhaço. Em geral, histórias de palhaços, quando não descambam para a comédia (ou para o terror), seguem aquele clichê do palhaço triste. Sim, Selton Mello faz um palhaço algo melancólico, mas o filme é leve, divertido, além de extremamente delicado e bem construído. Um road movie delicioso, uma história sobre descobertas e amizade, uma jornada interior.

O Palhaço

Selton é Benjamin, um palhaço em crise de identidade (“Eu faço o povo rir, mas quem é que vai me fazer rir?”), que trabalha no circo do pai, vivido pelo maravilhoso Paulo José, aqui em uma atuação irretocável. Enquanto tenta encontrar seu lugar no mundo, Benjamin viaja com a trupe por pequenas cidades, vivendo situações únicas e encontrando com pessoas das mais diferentes. E é uma delícia acompanhar esse grupo de um pequeno circo, que se apresenta pelos cantões do Brasil, em plena década de 70.

O mais bacana de O Palhaço é que o filme tem um clima bem otimista no fim das contas. Benjamin tem dúvidas quanto à sua vocação, e isso o aflige. Mas ao mesmo tempo nutre extremo carinho pelo circo e pelos colegas, todos visivelmente apaixonados pelo trabalho no circo, apesar das adversidades (e elas são muitas) e do sufoco. Benjamin é um cara que começa o filme sem identidade (nem mesmo o documento ele tem, sério!), mas encontra seu caminho após um belo e divertido percursos.

O Palhaço

O elenco é todo muito carismático, e Selton deu algumas ótimas bolas dentro, colocando atores estratégicos em papéis específicos que caíram como luvas para eles. É o caso das rápidas mas fantásticas (e inesquecíveis) aparições de Moacyr Franco, Tonico Pereira e Ferrugem. Cada personagem tem seu momento de destaque dentro da trama, e isso dá uma ideia ainda mais forte de que estamos diante de uma bela família. E o que dizer da linda e talentosa menina Larissa Manoela? A garotinha passa boa parte do longa quase que somente como observadora, mas sua presença é fundamental em dado momento do filme, em uma cena bastante emocionante.

Selton Mello se mostra um diretor muito competente. Gostei bastante das soluções que ele encontrou para o filme, dos cenários, que evidenciam a pobreza do Circo Esperança mas nem por isso deixam de ser lindos, e a fotografia belíssima. Tudo isso, somado às brilhantes atuações, dão a O Palhaço um clima maravilhoso, que acompanha a evolução da trama. Por exemplo, visualize as diferenças entre a primeira apresentação da trupe e a cena que fecha o longa, e você vai entender o que estou dizendo.

O Palhaço

O Palhaço é um filme muito bonito, emocionante e sincero. Não é de se espantar que Selton Mello tenha se curado de uma depressão graças ao processo de construção do longa. Tudo isso faz dele o filme nacional do ano, sem dúvida, e um dos melhores que vi em muito tempo.

Categoria: Cinema, Críticas

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01/dez 2011

Que incrível essa versão da Miley Cyrus pelo Tokyo Police Club

Sei muito pouco, quase nada, sobre a Miley Cyrus. Pra falar a verdade, até bem recentemente eu nem sabia que ela era a Hanna Montana (tosco eu, né?). Mas se tem uma coisa da Miley que eu gosto de verdade, é Party in the USA. Ouvi a música pela primeira vez no American Idol e fiquei louco atrás dela. É um primor pop.

Pois bem, a banda indie canadense Tokyo Police Club fez um cover muito bacana de Party in the USA, parte do projeto 10 Days 10 Covers 10 Years. É a deixa perfeita para quem gostava da música e tinha vergonha de admitir. Ouça aí:

http://www.youtube.com/watch?v=eZv0z2FwK-k

Vi no Bracin.

Categoria: Música

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