Entre 2007 e 2009, mantive o blog Yeah!, que tinha basicamente o mesmo formato deste aqui. Pois bem, o blog está fora do ar há pelo menos dois anos, mas achei um arquivo valioso, com boa parte dos posts publicados à época, principalmente entre 2008 e 2009. Vou começar a desovar por aqui alguns textos que me orgulham e/ou me trazem boas lembranças. Achei oportuno começar com um post publicado há exatos três anos, com as minhas impressões sobre um filme que está fácil até hoje no meu top 3: a belíssima animação Wall-E.
Nas primeiras cenas de Wall-E, vemos o simpático robozinho cumprindo mecanicamente sua tarefa de juntar e compactar o lixo deixado pelos seres humanos na Terra. Pelo tamanho das pilhas de lixo compacto que formam a paisagem pós-apocalíptica que nos é apresentada, dá pra perceber que o pequeno Wall-E está ali há bastante tempo (700 anos, sabemos depois). Depois de tanto tempo, parece que o robô desenvolveu uma personalidade, e passa os dias colecionando objetos interessantes que coleta no meio do lixo, explorando o ambiente com seu espírito curioso, acompanhado do único ser vivo que sobrou na Terra, uma barata tão curiosa quanto Wall-E. E claro, assistindo Hello, Dolly em seu iPod e tentando imitar as cenas.

Não é preciso mais do que 10 minutos de filme para que a afeição por Wall-E fique evidente. Ao mesmo tempo em que nos apaixonamos por uma das criaturas mais carismáticas já apresentadas no cinema, fica também uma certa angústia provocada pela solidão do personagem. É quando uma nave espacial desce na Terra, provocando tremores de medo em Wall-E, e despertando sua curiosidade sobre a robô que sai de dentro da nave, a modernosa e nervosinha Eva.

Eva é um robô mandado à Terra para procurar vestígios de que o ambiente já é propício para a volta dos humanos que, após tornarem o planeta inabitável com tanto lixo, precisaram se exilar no espaço. E é uma pequena plantinha guardada por Wall-E que dá a missão de Eva por cumprida. Nesse momento, a curiosidade de Wall-E já virou o mais puro amor por Eva. Chega a comover a forma como o robô faz tudo para proteger a amada quando ela está “desligada”, ou a timidez da tentativa de pegar na mão de Eva pela primeira vez.
Quando a nave volta para buscar Eva, Wall-E não quer ficar sozinho novamente e dá um jeito de ir junto. A partir desse momento a história passa para a nave dos humanos, que são retratados como criaturas gorduchas e preguiçosas. Nesse momento, o filme perde um pouquinho o ritmo, mas só porque queremos mais e mais Wall-E vivendo suas confusões atrás de Eva. Nada que tire o brilho do filme.
Falar das qualidades de Wall-E é difícil, de tão fácil se apaixonar pelo robozinho. Seu jeito inocente, desastrado, mas extremamente simpático e amoroso, é capaz de derreter até mesmo os mais durões. O personagem consegue transformar um filme onde os diálogos ocupam espaço mínimo em uma experiência mágica e deliciosa. Mais do que isso, Wall-E tem o poder de trazer uma mensagem ambiental tão contundente quanto Uma Verdade Inconveniente, sem o academicismo de Al Gore, e sem cair no ridículo como M. Night Shyamalan em Fim dos Tempos. O humor de Wall-E é delicioso e inocente, e consegue arrancar de gargalhadas sinceras a sorrisos tímidos, e duvido que em dado momento alguém tenha conseguido evitar os olhos marejados.
Dizem que Wall-E é uma das melhores animações já feitas. Mentira pura! Wall-E é um dos melhores filmes já feitos. O fato de ser um desenho animado é apenas um artifício para contar uma boa história. E não é disso que é feita a magia do cinema?

P.S.: Não saia do cinema antes do fim dos créditos. A história continua ali de forma magnificamente criativa.
Post originalmente publicado no dia 28 de junho de 2008.
Categoria: Cinema, Do Fundo do Baú
Tags: Wall-E