25/fev 2014

Extraordinário, de J.R. Palacio [Resenha XXXIX]

Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo. (August Pullman)

Muito tem se falado sobre Extraordinário (Editora Intrínseca, 2013, 320 páginas), em como é um livro lindo, emocionante e que dá um tapa na cara da sociedade. A verdade é que o livro de R.J. Palacio realmente merece todos os adjetivos, e confesso que o li quase que uma vez só, e é impossível não se encantar e se emocionar com a história do pequeno Auggie.

ExtraordinárioAugust Pullman é um garoto de 10 anos acometido por uma raríssima síndrome genética que, entre outros inconvenientes, o deixou com o rosto completamente deformado. Isso faz com que ele seja alvo constante de temor, espanto e até risos das outras crianças e até adultos. Ele sempre estudou em casa, protegido pelos pais e pela irmã mais velha. Mas agora, chegando ao quinto ano, a mãe de Auggie decide que é hora do menino frequentar uma escola regular, fazer amizades e enfrentar o mundo lá fora.

Auggie é um garoto esperto, com uma visão objetiva de mundo, e que não se faz de coitadinho por causa de sua condição. Ao contrário, enfrenta as situações com coragem, apesar das dificuldades e do sofrimento causado pelo preconceito gerado por sua aparência. Quando chega à escola, August vai, aos poucos, se inserindo na dinâmica do novo grupo, fazendo amigos (destaque à ótima Summer, sua primeira e melhor amiga) e participando a vida escolar.

A verdade é que, se de repente um Wookiee começasse a frequentar a escola, eu também ficaria curioso e provavelmente olharia um pouco para ele! E, se eu estivesse andando com o Jack ou com a Summer, talvez cochichasse: “Olhe ali o Wookiee.” E, se o Wookiee me pegasse dizendo isso, ele saberia que não fiz por mal. Estava apenas apontando o fato de que ele era um Wookiee.

O livro é enriquecido pela forma como é narrado: em primeira pessoa, mas com narradores alternados. Assim, é possível ter não só a visão de Auggie, mas também de seus amigos, familiares e outras pessoas que fazem parte de sua vida. A trama, assim, é tecida sob diversos pontos de vista, mostrando que nem sempre é fácil julgar alguém por uma atitude supostamente errada, e que todo fato tem, pelo menos, dois lados. Outro ponto positivo é como a autora consegue contar uma história que poderia facilmente descambar para o piegas de forma natural e livre de sentimentalismos. É visível, ainda, o amadurecimento de August da primeira à última página.

Extraordinário é um livro que merece todo o hype que recebeu. É uma ode à gentileza, à tolerância, e é impossível chegar ao final sem se sentir tocado e, nem que seja um pouquinho, modificado. Se o livro é recomendado fortemente para qualquer leitor, para alguns chega a ser obrigatório, como um verdadeiro tapa de realidade.

Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.

Categoria: Livros, Resenhas

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21/fev 2014

Walt nos Bastidores de Mary Poppins [Crítica XLV]

Entre os anos 50 e 60, Walt Disney tentou quase obsessivamente comprar os direitos de adpatação para o cinema de Mary Poppins, da escritora P.L. Travers. Quando finalmente cedeu, a autora acompanhou de perto todo o processo, criticando avidamente a forma como o roteiro vai sendo montado e dando muito trabalho à equipe de roteiristas. É essa a história do longa Walt nos Bastidores de Mary Poppins (o imbecil título nacional do original Saving Mr. Banks), do diretor John Lee Hancock, que chega aos cinemas brasileiros mês que vem.

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No filme, Emma Thompson encarna com maestria a escritora P. L. Travers, que vai a Los Angeles para acompanhar a escrita do roteiro de Mary Poppins. “Não vou deixar que Mary Poppins seja convertida em uma de suas animações tolas”, ela diz em dado momento, criticando o modo Disney de produzir. Além disso, ela não fica nada satisfeita quando a produção vai se moldando como um musical. É o próprio Walt Disney (Tom Hanks) quem, junto aos roteiristas/compositores Robert e Richard Sherman (B.J. Novak e Jason Schwartzman), vai “amaciando” a autora.

Paralelamente à história, acompanhamos cenas da infância de Travers, em especial sua relação difícil com o pai (Colin Farrell), que contribuiu para moldar a trama de Mary Poppins, como a caracterização do pai das crianças do livro, Mr. Banks (por isso o título faz sentido e o nacional se torna mais estúpido, já que o foco do longa é Travers nos bastidores de Mary Poppins, e não Walt Disney). Mas é nessas cenas de flashback que o longa perde força, já que elas cortam o ritmo da história e pouco contribuem para o andamento do filme.

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É Emma Thompson mesmo quem vale o preço do ingresso. Ela está perfeita como uma P.L. Travers superprotetora, ranzina e cheia de tiradas mal humoradas e sarcásticas, que arrancam risadas sem soarem artificiais. Em dado momento, por exemplo, no começo do filme, quando ela chega ao hotel e encontra inúmeros personagens de pelúcia da Disney, ela resmunga enquanto joga um imenso Mickey para o canto “Fique aí até aprender a arte da sutileza”.

Muito se falou sobre a atuação de Tom Hanks e a injusta falta de indicação ao Oscar (o filme foi indicado apenas na categoria trilha sonora). A verdade é que, apesar de Hanks encarnar um Disney humanizado (ele bebe, fuma e fala palavrão), o personagem ainda assim peca pelo excesso de bondade, ternura e humildade, e o ator não chega a contribuir para o brilho da história. Paul Giamatti, ao contrário, consegue chamar a atenção, apesar do personagem praticamente sem função: o motorista que é, aparentemente, a única pessoa que gosta de verdade de Travers.

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Walt nos Bastidores de Mary Poppins é, afinal, um filme divertido, mas não mais que isso. A história obviamente foi romanceada com tons elogiosos a Disney. A impressão que fica, por exemplo, é que ao final do processo Travers acabou gostando do resultado final de Mary Poppins, o que não é verdade: a autora não autorizou que outras obras suas (inclusive com a mesma personagem) fossem adaptadas por Walt Disney, e chegou a incluir tal decisão em seu testamento. Mas a ótima interpretação de Emma Thompson salva o longa, e o processo de estruturação do roteiro de Mary Poppins não deixa de ser interessante, em especial para quem for fã do musical de 1964.

Categoria: Cinema, Críticas

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19/fev 2014

Noites de Alface, de Vanessa Barbara [Resenha XXXVIII]

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Noites de AlfaceÉ o luto de Otto pela morte da esposa Ada, com quem viveu por  mais de 50 anos, o fio condutor de Noites de Alface (Alfaguara Brasil, 2013, 168 páginas), excelente romance da jornalista e cronista Vanessa Barbara, que fala sobre temas difíceis como morte e solidão, sem deixar de ter um delicioso e sutil humor, com toques de ironia e absurdo. Ada era o ponto de contato entre Otto e o mundo exterior. Com sua morte, absorvido pelo luto da perda, Otto se isola, tentando manter a rotina de quando a esposa era viva, mas logo se vê, ainda que a contragosto, envolvido na dinâmica da excêntrica vizinhança que o circunda, cujo contato até então e dava apenas a partir das histórias que Ada contava.

A partir daí o romance se estrutura de forma a dedicar cada capítulo a um integrante da bizarra vizinhança (incluindo três cães meio desequilibrados) que, aos poucos, vai estabelecendo uma relação, ainda que involuntária, com Otto. E é assim que Vanessa Barbara fisga de vez o leitor, ao investir em uma galeria de personagens cujas tarefas rotineiras e nada extraordinárias, apesar de com um pé no nonsense, deixam um sorriso no rosto constante à medida em que avançam as páginas. Inclua aí um farmacêutico maníaco por efeitos colaterais, uma antropóloga louca por iogurte e documentários sobre esquimós, um carteiro que canta melhor do que entrega cartas, e um veterano da Segunda Guerra que levou 30 anos para descobrir que a guerra acabou. No terço final do livro, a história ganha um tom detetivesco, ao expôr um segredo que envolvia Ada e boa parte da vizinhaça, que já se anunciava desde o início, mas parecia mais um devaneio de Otto.

Noites de Alface é um lindo livro, que consegue encantar apesar (ou por causa) da simplicidade, que tira humor da situação do luto, que apresenta personagens carismáticos e situações encantadoras, em uma obra marcada pelos detalhes e pela sutileza. Mesmo o ranzinza Otto conquista, e as belas memórias da relação dele e Ada dão o tom da obra, ao valorizar as pequenas nuances da convivência diária.

Categoria: Livros, Resenhas

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09/jan 2014

Diário da Queda, de Michel Laub [Resenha XXXVII]

A primeira vez que li algo do Michel Laub foi um texto na piauí de novembro do ano passado, sobre a feira literária de Frankfurt, e fui imediatamente fisgado pelo estilo inconfundível dele. Daí a pegar para ler Diário da Queda (Companhia das Letras, 2011, 152 páginas) foi um pulo, do qual não me arrependi por nem um instante.

Diário da Queda, de Michel LaubO livro é narrado em primeira pessoa por um escritor judeu que reflete sobre sua vida enquanto narra fatos sobre o avô, o pai e ele próprio, de forma a reconstruir a personalidade de três gerações de sua família. O avô, sobrevivente de Auschwitz, deixa um diário em que descreve o mundo em que viveu de forma idealizada, sem sequer citar o campo de concentração, uma espécie de “mundo como deveria ser”. O pai, um judeu ortodoxo que resolve escrever suas memórias quando descobre estar com Alzheimer. O narrador, atormentado pelos traumas do passado, o alcoolismo, e um acidente que ajudou a provocar quando jovem (a queda do título, de um colega de classe, o único não judeu da escola, durante uma festa de aniversário).

Para tecer a trama das três histórias que se cruzam e se relacionam, Laub não constrói o livro de forma linear, mas vai e volta no tempo, repete algumas passagens até exaustivamente, mas a cada momento revela um novo aspecto, o que prende a atenção e faz do livro uma curiosa e bem acabada reconciliação com o passado de um narrador em busca de redenção. Os parágrafos numerados, tais como “micro-capítulos”, já são marca característica de Michel Laub, e tornam a leitura dinâmica e atraente.

Mas o que chama a atenção mesmo em Diário da Queda é a história magistralmente construída, em relações de causa e consequência entre os fatos das vidas de pai, filho e avô, que moldam a personalidade do narrador. O livro é uma tentativa de, assim como avô e pai já haviam feito, buscar a redenção através da escrita. Redenção por causa do trauma causado pela queda do colega, pelas perseguições sofridas na adolescência, quando ele se muda para um colégio não judaico, pelo alcoolismo que destruiu dois casamentos e pela relação conturbada com o pai. O resultado, uma conciliação contestadora com o passado e o flerte com o futuro, coroam um livro que merece ser lido e aplaudido de pé.

Categoria: Livros, Resenhas

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07/jan 2014

Começando os trabalhos de 2014

 2014

 Em 2013, resolvi ter um fim de ano low profile aqui no blog. Não quis fazer as tradicionais listas de melhores do ano, mesmo porque os 365 dias que terminaram foram, para mim, pobres em leituras, filmes assistidos e novas músicas ouvidas.

Este blog ficou boa parte de 2013 em hiato, por motivos pessoais/profissionais (ainda conto, mas não agora). 2013 foi um ano de novas escolhas, de plantar o que vai ser colhido no futuro, de investir em novos caminhos e tomar coragem para buscar outros rumos. Se vai dar certo, só o tempo dirá! (mas os primeiros frutos começam a aparecer)

Muita coisa ficou para trás em 2013. Alguns poucos livros lidos cujas resenhas não fazem mais sentido serem feitas. Filmes assistidos que já não valem a pena serem comentados. Fatos que gostaria de comentar mas que perderam o calor do momento. Queria falar sobre Garota Exemplar, mas teria que ler novamente para fazer uma resenha que valha a pena. Tive comichão para escrever sobre Gravidade. Como eu quis falar sobre Clarice Falcão. Eventualmente talvez os faça, 2014 está aí, com 365 358 dias cheios de possibilidades.

Quanto ao blog, ele segue vivo e ativo. Talvez não tão ativo quanto nos tempos mais áureos, mas certamente mais do que em 2013. Tenho lido bastante, e algumas resenhas já estão no forno. Voltei a acompanhar o mundo pop, e certamente vou dividir algumas coisas com você, fiel e obstinado leitor. Pretendo voltar a gravar vídeos, quem sabe logo logo. Planos não faltam, e esse blog virou meu reduto jornalístico em meio às mudanças que venho empreendendo.

Portanto, feliz 2014 pra nós, e a casa está aberta para seu comentário, sugestão ou puxão de orelha!

Categoria: Bastidores

26/dez 2013

Nu, de Botas, de Antonio Prata [Resenha XXXVI]

Em uma crônica recente na Folha de São Paulo, Gregório Duvivier fala sobre sua experiência lendo Nu, de Botas, e como sempre se identificou com Antonio Prata:

 Fiquei melhor amigo do Antonio Prata sem que ele soubesse. (…) E me mandaram o livro dele: “Nu, de Botas”. E descobri que a gente não era melhor amigo. A gente era a mesma pessoa. Li as memórias dele com a impressão estranhíssima de que eram as minhas memórias. E eu garanto que isso vai acontecer com você também. Por mais louca e específica que tenha sido a vida do Prata, por mais louca e específica que tenha sido a sua vida, quando o Prata fala da vida dele, parece que é a sua vida, parece que ele é você e sempre foi. Volta e meia tinha que fechar as páginas e lembrar da minha própria vida, pra não misturar com a vida dele.

Pois minha relação com o autor também era um pouco assim. Ainda não havia lido nenhum livro dele, mas sempre corro ao caderno Cotidiano da Folha, aos domingos, para ler sua coluna semanal (essa aqui, de novembro, já clássica, é uma das mais comentadas da história do jornal – salve a ironia!). Por isso, não chega a ser uma surpresa o fato de eu ter gostado tanto de Nu, de Botas (Companhia das Letras, 2013, 144 páginas).

Nu, de BotasO livro é uma coleção de crônicas/contos, em que Prata conta episódios marcantes de sua infância, eo faz sob a ótica de uma criança. Talvez essa seja a grande beleza do livro. Como os fatos narrados se concentram no período entre os 5 e os 10 anos do pequeno Antonio, os textos um garoto cuja visão de mundo está em formação, e as formas ingênuas que ele encontra para explicar o universo dos adultos. Com isso, Antonio Prata vai colecionando uma série de situações que nos levam de um leve sorriso a uma larga gargalhadas em questão de segundos, como quando o menino e um amigo resolvem testar a teoria que seguindo em linha reta mar adentro eles chegariam à África, ou a tentativa de evitar a humilhação pública quando todos descobrem que ele não usava cuecas, ou ainda o encantamento do pequeno quando conhece um homem que não tem uma perna.

O autor vai, então, tratando com leveza e muito humor, desse período de sua vida, misturando fatos reais e criações ficcionais que, como constatou Duvivier, fazem a gente se identificar facilmente. Prata consegue arrancar risos de situações que vão desde as mais banais, o que já é característicos de suas crônicas de jornal, até temas mais espinhosos, como a visão de uma criança sobre a morte ou sobre o sexo. Tudo isso sem perder o humor e até a ternura típica dessa fase.

Falar mais seria estragar a deliciosa experiência de ler o texto fluido e inspirado de Antonio Prata. Nu, de Botas é daqueles livros que a gente lê em um dia, porque não consegue largar, e cujo maior defeito é parecer curto demais porque quando se dá conta, acabou. E ficamos órfãos desse novo melhor amigo, mesmo que seja um melhor amigo platônico.

Aliás, vale a pena assistir essa pequena entrevista do autor à Saraiva Conteúdo, em que ele fala sobre o processo de escrita do livro:

Categoria: Livros, Resenhas

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21/dez 2013

Veja que fantástico esse vídeo de instruções de segurança de vôo

Quem está aconstumado a viajar de avião sabe como são chatos aqueles avisos de segurança que precedem a decolagem. Pois a companhia aérea Virgin America resolveu inovar e criou um vídeo para ser exibido antes dos vôos que reúne todas as instruções de segurança que são obrigatórias. O resultado: um vídeo fantástico, que não só atraiu a atenção de todos os passageiros dos vôos da Virgin, como já tem mais oito milhões de visualizações no YouTube. Veja e você vai saber porque:

Além de tudo a música é muito boa!!!

Categoria: Música

18/dez 2013

Wow! Saiu o primeiro poster do filme de “A Culpa é das Estrelas”

Quem já leu A Culpa é das Estrelas sabe que o livro é um dos mais belos já lançados, e que John Green é gênio e um dos melhores escritores de YA da atualidade. Pois essas pessoas certamente estão, como eu, esperando ansiosamente pela estreia do filme baseado no livro, que chega às tela em 6 de junho (sem data confirmada ainda no Brasil). É para você que dedico esse primeiro poster do longa, com direção de Josh Boone, divulgado hoje. Nele estão Shailene Woodley e Ansel Elgort. que interpretam os protagonistas Hazel e Augustus.

A Culpa é das Estrelas

Via MTV.com.

Confira a sinopse de A Culpa é das Estrelas, o livro:

Hazel é uma paciente terminal. Ainda que, por um milagre da medicina, seu tumor tenha encolhido bastante — o que lhe dá a promessa de viver mais alguns anos —, o último capítulo de sua história foi escrito no momento do diagnóstico. Mas em todo bom enredo há uma reviravolta, e a de Hazel se chama Augustus Waters, um garoto bonito que certo dia aparece no Grupo de Apoio a Crianças com Câncer. Juntos, os dois vão preencher o pequeno infinito das páginas em branco de suas vidas.

Em tempo, como li o livro quando o blog estava em recesso, não escrevi sobre ele por aqui. Mas o farei certamente, assim que acabar de reler.

Categoria: Cinema

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18/dez 2013

Círculo de Fogo [Crítica XLIV]

Guillermo del Toro é um cara esperto, e um dos grandes diretores em atividade em Hollywood. Quem assistiu a O Labirinto do FaunoA Espinha do Diabo ou Hellboy sabe do que eu estou falando. Mas nada havia me preparado para a experiência acachapante que é Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013, 2h11). Se você estava achando que o longa é uma espécie de Transformers é melhor rever seus conceitos, pois estamos falando de um dos melhores filmes de 2013.

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O longa é uma espécie de homenagem aos clássicos filmes japoneses de monstros (os kaiju eiga, como Godzilla). Na história de del Toro, uma fenda se abre no Oceano Pacífico, criando um portal que libera gigantescos monstros cuja única função é destruir tudo o que vêem pelo caminho. Para deter esses alienígenas, chamados de Kaijus, são criados robôs gigantes, os Jaegers, controlados por duas pessoas, verdadeiros heróis na mitologia do diretor. O mais legal é que o filme já começa “na pressão”, no meio da pancadaria, com poucas explicações sobre o contexto, que vai sendo revelado aos poucos. O universo kaijus x jaegers do filme é fantasioso, mas tratado com tamanha dedicação e detalhes pela produção (ao mesmo tempo sem precisar se valer do excesso de didatismo, o que poderia tornar o roteiro pedante e desinteressante) que, sem perceber, já estamos imersos na história.

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A linha principal do filme segue Raleigh (Charlie Hunnan) que, após perder o irmão numa luta com um kaiju no começo do filme, é novamente convocado, tempos depois, pelo marechal Stacker (Idris Elba), quando os ataques de kaiju começam a se tornar mais frequentes. Elese junta à novata Mako (Rinko Kikuchi), cujo principal objetivo é vingar a morte da família, comandando um Jaeger antigo, em uma missão quase suicida de tentar fechar a fenda no Pacífico com uma bomba atômica. A veia quase cômica do longa fica por conta dos cientistas Geiszler e Gottlieb (Charlie Day e Burn Gorman), que tentam paralelamente criar uma conexão neural com o cérebro de um kaiju. Vale citar ainda o personagem de Ron Perlman, um excêntrico contrabandista de pedaços de kaiju.

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Boa parte da delícia de Círculo de Fogo está no belíssimo design de produção e efeitos especiais. Os Jaegers, pesados, meio lentos e castigados pelo tempo, são completamente críveis, enquanto os kaijus, com detalhes fluorescentes e aparência devastadora, roubam a cena. As batalhas entre jaegers e kaijus são de tirar o fôlego e assistir sentado na beirada da cadeira. O som é imersivo e extremamente realista, e a trilha sonora de Ramin Djawadi (é dele as trilhas de Game of Thrones e Homem de Ferro) cria todo o clima – destaque para o tema principal, que se repete a cada momento mais emocionante da história.

Círculo de Fogo pode ser um “filme de meninos”, com brigas e explosões, mas Guillermo del Toro consegue criar uma obra que vai além do cinemão-pipoca e colocar conteúdo em um filme para se assistir com a respiração ofegante. E vale cada minuto!

Categoria: Cinema, Críticas

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05/dez 2013

All Star Azul, de Ricardo Mesquita [Resenha XXXV]

Na edição de novembro da piauí, o autor Michel Laub escreve sobre a feira do livro de Frankfurt e, em dado momento, fala sobre sua relação com a leitura de outros autores, em especial os novatos:

Ao contrário do que dizem por aí, lemos nossos colegas torcendo por eles. São amigos ou pessoas com quem cruzamos de uma forma ou de outra, em conversas virtuais, eventos ou viagens como esta, e não é agradável fingir que não se leu o texto ou fazer elogios falsos. Também me solidarizo com quem passou dois, cinco, dez anos pensando diariamente numa história, lutando contra todo tipo de pudor e limitação para botá-la no papel, para depois ver na reação dos outros – já aconteceu comigo – que o esforço foi por água abaixo. [Michel Laub, na piauí de novembro/2013 - disponível para assinantes]

allstarazulMas o que isso tem a ver com a resenha de All Star Azul (Metanóia Editora, 2012, 254 páginas)? Peguei o livro de Ricardo Mesquita com toda a boa vontade do mundo, e até li com interesse de saber como terminaria a história, mas os “buracos” do livro eram tantos e tão graves que não dá pra fazer uma resenha positiva.

É possível saber quando a amizade se torna amor? “All Star Azul” é um desses livros singelos que conta a estória de quatro grandes amigos: Diego, Thiago, Mah (Maria) e Jú (Juliano). Adolescentes, terminando o ensino médio vivem o despertar de sua sexualidade entre os compromissos escolares, as baladas e aventuras dentro e fora da escola. Diego e Thiago são os melhores amigos. Diego, se descobre gay aos 14 anos e logo conta para o pai que, a princípio, não leva muito a sério mas procura ajuda de uma psicóloga. Quando entende que a homossexualidade do filho não é algo que se escolhe, o aceita com a naturalidade de quem ama incondicionalmente. Thiago é o gazeteiro, extrovertido, anda sempre aprontando. O que Diego não sabe é que Thiago também é gay. O problema é que quando o pai de Thiago desconfiou que ele gostava de meninos o agrediu violentamente, fazendo com que Thiago vestisse a máscara de namorador e foi assim que ele ficou conhecido na escola. Poderá uma grande amizade resgatar a identidade de Thiago? Ou ele estará condenado a reprimir seus desejos e afetos para o resto da vida? Vale a pena viver escondido, sob o peso do preconceito? Do medo, pode vicejar o amor?

Se a história tinha todo o potencial de ser muito interessante, a escrita do autor estraga tudo. Truncada, cheia de erros de concordância, ortografia, diálogos mal colocados e sem indicação, enfim, uma escrita primária mesmo. Pesquisando na internet, descobri que All Star Azul era, originalmente, um conto escrito por um autor anônimo no finado Orkut, que acabou virando livro. Pois bem, o que o autor fez foi pegar o texto integral publicado aos pedaços na rede social e transformar em livro, sem nenhuma adaptação, mantendo a linguagem, os erros e tropeços do texto original. Em outras palavras, faltou um apurado trabalho de edição.

Além disso, nos poucos trechos que chegaram a ser cortados, foi-se embora aquele que dava uma parca explicação do motivo do título All Star Azul, o que fez com que o livro ficasse com um nome que em nada remete ao que é contado na história (e leva a crer que o título foi escolhido para pegar carona no sucesso da canção de Nando Reis). Apesar da sinopse revelar que se trata da história de quatro amigos, a trama é centrada mesmo em Diego e Thiago, e os outros dois aparecem quando é conveniente à linha de ação, o que torna alguns momentos (em especial aquele que leva ao desfecho do livro) um tanto artificiais. Outro ponto que me incomodou foi o excesso e a explicitude das cenas de sexo, fato talvez explicado pela origem do texto, que mais uma vez revela a necessidade de um trabalho de edição sobre a obra.

Enfim, All Star Azul conta uma história que, conduzida de outra forma, poderia sim ser uma singela história de amor e amizade, mas se perde em uma edição amadora, em que só se salva a bela capa.

Categoria: Livros, Resenhas

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